Os Blind To Faith têm um disco cujo título não só se adequa na perfeição à sua música, como ainda transporta consigo uma enorme carga simbólica – The Seven Fat Years Are Over. A referência bíblica implica um raciocínio simples: depois de sete anos de engorda, é altura de passar fome durante outros tantos. Ou, se preferirmos uma versão ainda mais simplista, não há boa maré que perdure.

Ora, enquanto o fim não surge ao virar da esquina, o hardcore de tonalidades monolíticas vive tempos memoráveis e não falta quem os saiba aproveitar. Olhando em seu redor e vendo bandas como NailsThe SecretBlack Breath ou Burning Love assinados pela distinta Southern Lord e a gravar pelo muy nobre Kurt Ballou, também os Baptists decidiram investir nesse já tão reputado binómio. Resultado? Mais um disco impecável.

Numa semana em que por aí já circula o novo dos Nails, é refrescante saber que, ao contrário de Abandon All Life, este Bushcraft não soa como uma besta “anabolizada”. Se tantas vezes se fala, sem posterior justificação, que a gravação “foi feita como se um concerto ao vivo se tratasse”, no caso do novo dos Baptists ele soa, de facto, como se os canadianos tivessem dado um bruto gig no God City Studios. Todos os instrumentos respiram livremente, com destaque para as incontroláveis guitarras, tão profícuas a despejarem riffs que não se confinam a rodopiar na cartilha crust/d-beat. Quem as ouve sente que o leque de influências se expande para um cenário onde o post-hardcore dos Young Widows ou dos Unbroken nunca se varre para debaixo do tapete.

Não é arriscado afirmar que os Baptists serão, provavelmente, a banda menos metal e mais punk de todas as que a editora de Greg Anderson tem vindo a promover. Apesar de soarem naturalmente ríspidos, olhando sempre de soslaio para o legado sludgy dos Cursed, estes tipos de Vancouver transparecem uma atitude descontraída mesmo quando decidem perder as estribeiras em Bullets ou em Mortar Head. Não há neles toda aquela negra simbologia, nem se encontram vestígios de composições forçadas – Buschraft é um excelente álbum de punk hardcore não pela sua originalidade, mas por uma sinceridade que faz com que este registo de estreia flua de forma notável.

Fruto de outros lançamentos maiores dentro do género, arrisca-se a cair rapidamente no esquecimento; uma pena, já que, para além de grande riffs, temos aqui um dos mais intrincados trabalhos de bateria nos tempos recentes – sem surpresas, pois o drummer é Nick Yacyshyn dos extintos A Textbook Tragedy.