Na última quinta-feira fizeram-se ouvir os últimos aplausos do Post-Amplifest. Não só o público se despediu do festival como também se expressou pela última vez, este ano, num evento Amplificasom. Não vamos ser lamechas até porque a promotora este ano esmerou-se, e muito! Estive à conversa com o André Mendes e com o Ângelo Carvalho no final do evento para assinalar os oito anos de bons concertos, rigor e humildade.   

Espreitei o antigo blog Amplificasom e, pelo que percebi, tudo começou com a vontade de mandar uns “bitaites” sobre música. Fala-me um pouco desses tempos e da passagem para a Amplificasom como promotora. Como surgiram os primeiros contactos com as bandas?

Foi muito lento, não foi planeado. Não sei bem explicar o porquê de ter escrito aos Enablers em 2006. A determinada altura o blog tinha muitas visitas, cerca de 600 pessoas por dia. Os donos das lojas diziam que as pessoas liam as críticas no blog e depois iam comprar os discos… e eu achava tudo aquilo muito estranho e muito engraçado. O blog surgiu para nós partilharmos o que ouvíamos, numa altura em que o panorama cultural era muito diferente. A maior parte das bandas não vinham ao Porto porque davam a volta em Espanha. E as que vinham eram as grandes bandas para tocar em Madrid ou Lisboa. Pensando bem, nem sequer existiam salas. A Lovers & Lollypops é apenas um ano mais velha do que a Amplificasom, então as coisas começaram a acontecer e tudo se uniu muito naturalmente para formar algo. OPlano B começou sensivelmente ao mesmo tempo, o Porto-Rio existia mas estava virado para outro tipo de concertos, o Passos Manuel não existia, etc. Nós nem pensámos na estrutura de tudo isto como uma empresa. Deu-me um flash na cabeça e escrevi aos Enablers para virem cá tocar. O tempo foi passando e a determinada altura vão-se fazendo mais e mais eventos. Nos primeiros anos era algo esporádico, mas as coisas funcionam como uma bola de neve: se fazemos um bom trabalho, ele é reconhecido e surgem outras oportunidades para o repetir.

O desejo e a vontade são a vossa força motriz mas havia alguém que tinha noções a nível económico e financeiro?

Eu tenho experiência. Não tenho formação mas tenho experiência. Sempre fui um auto-didacta em relação a tudo.

Um dos concertos mais antigos e memoráveis a que assisti foi o de ISIS no Sá da Bandeira. Foi muito especial ouvir a voz do Aaron Turner ecoar naquele teatro. Foi o único evento que agendaram nessa sala?

Sim, foi algo casual. E aconteceu no Sá da Bandeira porque, lá está, o Hard Club nem sequer existia.

Existiu sempre essa preocupação de fazer os eventos no Porto?

Sim, nós somos daqui e é aqui que o nosso trabalho e esforço faz sentido. Tudo isto reflecte o crescimento natural da própria cidade. Os hostels abrem porque a procura cresceu e a oferta cultural também. E nós também influenciámos muita gente. Há gente que nunca veio ao Porto e que vem por nossa causa. Falo de pessoas do Algarve, de Lisboa e do estrangeiro que nos escrevem. Por outro lado, temos interesse em expor a nossa marca noutras cidades. A verdade é que o Porto e Lisboa são as únicas cidades em que se pode apresentar bandas desta dimensão. Nós agenciamos cada vez mais em Lisboa. Por exemplo, fomos nós que fizemos os Future Islands estrearem em Portugal. Há muita coisa a acontecer. Este ano fizemos a contabilização e fizemos bastante em termos de tours, lançamentos, eventos, etc. Foi um ano muito preenchido.

Podes dizer que tens uma rede de contactos? As pessoas procuram-te inclusivamente?

Claro que sim, qualquer pessoa tem uma. Este ano, e talvez nos dois últimos, acho que foram mais as pessoas a virem ter comigo do que ao contrário.

Também tens que recusar propostas?

Temos que saber gerir. Não se pode dizer que não a um agente que dá bastantes concertos por ano e, desses concertos, a maior parte corre bem. Temos que saber gerir todas as partes do negócio, porque isto não deixa de ser um negócio. Nós não o encaramos dessa forma porque gostamos mesmo disto, e acho que passamos essa imagem com naturalidade.

Fala-me um pouco do trabalho da Amplificasom num dia como este. Como se proporcionam todas as condições às bandas e quais são os teus compromissos perante o público? 

Ainda há pouco, numa conversa, estava a comentar que as pessoas chegam aqui [Hard Club] depois de jantar, mas nós [Amplificasom] estamos aqui desde a manhã. Ou seja, para além do que está para trás (meses e meses de promoção), nós estamos a conduzir o evento há imensas horas para nos certificarmos de que a banda vai ser tratada como merece; e para garantir que não vão haver atrasos porque há pessoas que têm de apanhar comboios mal o evento acaba. Isto já não se trata de algo relativo apenas ao Porto. Há pessoas que nos escrevem de Aveiro, de Bragança e vêm mesmo assim num dia de semana para ver um concerto. No fundo, nós queremos tratar bem toda a gente – as bandas e o público. E quando me refiro ao público, falo da escolha da sala e a qualidade do som. É a nossa forma de trabalhar. Quando fazemos algo tem de ser assim. E isso acaba por se reflectir na própria prestação da banda. Se a banda for mal tratada durante o dia, se calhar não vai dar um concerto tão bom. Reflecte-se em palco e depois as pessoas reflectem aquilo que viram… Tudo se resume a um concerto de 75 minutos.

Vocês são a única promotora que eu conheço que é certinha em tudo, inclusivamente nos horários. Como atingiram todo este rigor?

Isso teve o seu processo de educação. Lembro-me de que emOrthodox (na Fábrica de Som) a banda começou a tocar à uma da manhã. Isto porque estávamos numa altura em que não se passava nada no Porto e as pessoas estavam habituadas a chegar atrasadas. Como dependíamos exclusivamente da bilheteira, tivemos que esperar que as pessoas chegassem. Mas isso aos poucos foi mudando, sabendo o que estávamos a perder naquele preciso momento. As pessoas chegavam meia hora ou uma hora mais tarde porque naquele espaço costuma começar sempre atrasado. Lembro-me de que, no ano passado, marcámos Moon Duo no Armazém do Chá a uma quinta-feira, às 21:30. E a essa hora estava lá toda a gente apesar de, habitualmente, ser uma sala onde os concertos começam sempre por volta da uma da manhã. Mas, lá está, as pessoas sabem quem está a organizar, sabem que começa a horas e não querem perder a banda. Claro que já são oito anos, já levámos muito na cabeça, já perdemos muito, mas também conquistámos…

Achas que foste tu que fomentaste e “cozinhaste” tudo isto: o rigor e um público obediente e atento?

Não… não fui eu, mas é bom ouvir-te dizer isso, obviamente. Penso que a naturalidade com que lidamos com as pessoas, bem como a nossa forma de encarar tudo isto foi evoluindo por si só. Nós queremos chegar ao fim do evento e receber o feedback das pessoas. Nós fazemos os concertos para quem? Sem as bandas estas noites não se proporcionavam. E sem o público não era possível fazer as coisas de forma sustentável. Temos de ter noção de que aprendemos todos os dias. Ter o feedback das pessoas é crucial, perceber se estamos em sintonia. Nós gostamos das coisas certinhas – de uma boa sala, de um bom som, de pessoas confortáveis, de preços justos, de começar a horas e de toda a gente feliz!