Os …And You Will Know Us by the Trail of Dead descobriram, em Tao of the Dead, o feeling mais pop, ao encontro do qual têm caminhado calmamente. Agora, esta sua faceta mais ligeira parece jogar na perfeição com a necessidade de inventar e reinventar o rock.

Os norte-americanos pisam o trilho dos mortos, um trilho morto, em pouco se inventa e muito se recicla das obras já idas e mais do enterradas. É isso o rock presente. Vivemos a época dos materiais reutilizados, e no entanto os Trail of Dead deram-se mesmo ao trabalho de explorar um pouco mais, de fazer melhor o trabalho de casa, de recriar um pouco mais e de tomar direcções opostas num único caminho, que começaram a percorrer em The Century of Self (2009).

A intenção de Tao of the Dead é clara: conseguir fazer música que agarre a atenção e se cole aos ouvidos, sem deixar que soluções simples e estruturas tacanhas se oponham a um processo criativo já muito oleado, que deu frutos como o electrizante riff de Isis Unveiled ou a desconcertante Another Morning Stoner, um clássico da nova geração de apreciadores de música alternativa. Missão bem sucedida – há momentos dignos dos melhores e mais sonantes Rolling Stones (ouça-se B. Pure Rádio Cosplay) completamente engrenados na primeira fase dos Trail of Dead graças a transições dignas do progressivo dos anos 70.

A começar nas estruturas, ou melhor, na estrutura de uma única música dividida em 11 momentos distintos, vulgo faixas, todos perfeitamente ligados no contínuo que é a parte primeira de Tao of the Dead, passando pela segunda parte de uma só faixa mais longa (talvez por isso menos conseguida), e a terminar nos arranjos que transcendem alguns pequenos nadas e os elevam ao estatuto de grandes momentos, como o são C. Summer of All Dead Souls ou H. Weight of the Sun (or the Post-Modern Prometheus) e as suas necessidades orelhudas exponencialmente trabalhadas nos seus níveis de intensidade, este é um álbum que exala “versão moderna e popular deThick as a Brick dos Jethro Tull” por todos os poros e que vive para esse epíteto.

Claro, padece de todos os problema que o epíteto lhe pode transmitir quase automaticamente: está na sombra de uma obra-prima, e apenas na minha comparação absurda; até na minha perspectiva se trata somente de uma versão popular daquilo que Ian Anderson fez durante a sua carreira, e estará, por isso mesmo, votada a não ter o mesmo impacto de Thick as a Brick; e Tao of the Deadnão se trata, realmente, de uma composição dotada da mestria do compositor britânico.

Com esta proposta megalómana, Jason Reece, Conrad Keely e companhia conseguem, sem sombra de dúvida, tirar muita gente do sério e mostrar que o rock ainda tem por onde andar sem soar a algo completamente copiado. Tao of the Dead não é mais do que um sopro de esperança para os negativistas do mundo, que decretam a morte do rock por causa do roque, mas não deixa de ser uma brisa cheia de ar fresco. No fundo, ainda bem que os …And You Will Know Us by the Trail of Dead se baptizaram assim. Demonstra que sabiam para onde iam e só dá razão (alguma, pelo menos) ao que escrevi.