O Maria Matos encheu-se para ver a estreia do duo Alva Noto e Blixa Bargeld – anbb– em Lisboa. O público variava entre uns poucos conhecedores do projecto; fãs de Einstürzende Neubauten; apreciadores de Alva Noto; ou pessoas que gostam de ambos os projectos isoladamente. Em suma, quase ninguém estava preparado para aquilo que se passou nas duas últimas horas da noite de 21 de Setembro.

Palco minimalista: uma projecção na parede de uma figura geométrica ou duas que iam variando, com um fundo preto e uma outra cor que iam mudando: vermelho, amarelo e azul. Do lado direito do palco estava Alva Noto, em pé, com um portátil à sua frente, uma mesa de mistura e outros aparelhos à sua direita; na extremidade esquerda estava Blixa Bargeld com um microfone, um portátil e outros aparelhos a seus pés, e um copo que se supõe que continha vinho branco atrás.

Blixa, bem disposto como habitualmente, explica as suas peripécias na viagem de avião – ele trazia uma harmónica e como objecto de metal causava alguns entraves ao seu embarque. Passado um minuto descobrimos que, de facto, a harmónica é uma arma na boca de Blixa. Sons frenéticos da harmónica iam sendo sobrepostos enquantoAlva Noto ia introduzindo sons precisos, electrónicos e minimalistas. Soava bem, estranho, mas bem. A harmónica desaparece enquanto objecto – o mesmo não se pode dizer do som – e aparece finalmente a voz de Blixa. As sobreposições agora eram feitas com a sua voz – sons e palavras.

E o concerto foi-se desenrolando sempre da mesma forma: sons milimetricamente calculados, a voz de Blixa com ou sem sobreposições, criando por vezes ritmo, outras vezes intensidade.

Mas que não se pense que foi enfadonho ou repetitivo, nada disso. A forma era sempre a mesma, mas não o conteúdo. Enquanto que existiam partes que lembravam Einstürzende Neubauten em versão electrónica, alto e em bom som, com força e intensidade; existiam também momentos sublimes de melancolia e solidão que arrepiavam não os ouvidos, mas as entranhas. E a sintonia entre ambos é boa, as coisas entrelaçam-se perfeitamente, o que parece ser caos nunca o é, na realidade é tudo límpido e apurado.

A língua, tal como nos Neubauten, vai variando sempre entre o inglês e o alemão. Isso pouco importa, o que importa é a profundidade e a intensidade que Blixa Bargeld dá ao cantar, falar, sussurrar e gritar. Os gritos dele, agudos e longos, são uma característica já muito conhecida e que neste concerto foram uma presença constante. Depois de um alinhamento variado, que contou com uma extraordináriacover de ‹‹I Wish I Was a Mole in the Ground›› (canção folk americana de Bascom Lamar Lunsford), acaba a primeira parte com espaço para dois encores.

E o primeiro encore foi algo aterrador para quem deseja manter o seu sentido de audição. Blixa explica que descobriram que os seus gritos quando gravados, sobrepostos e amplificados ‹‹faziam coisas nos ouvidos das pessoas›› e que iam tocar uma peça de 10 minutos que começaria dessa forma, o público riu-se, mas Alva Notoavisou que não estavam a brincar. E não estavam: um berro de Blixa intenso e prolongado é sobreposto várias vezes a um volume pouco recomendável e os ouvidos de toda a gente estalam, parecia que chovia torrencialmente (sem exagero) dentro dos nossos ouvidos. As caras de desconforto do público eram nítidas e houve algumas desistências – que já tinham existido antes. Mas foi uma experiência profunda que fez sentido tendo em conta onde se estava.

O público, como foi dito acima, não estava preparado para um concerto imprevisível deste tipo. Foi um belíssimo e potente concerto com tanta simplicidade, mas que as pessoas iam estranhando do primeiro ao último minuto. E foi uma bela oportunidade de ouvir Blixa Bargeld quando se sabe que a tour europeia dos Einstürzende Neubauten não passará por Portugal.