Dois de Novembro de 2010. Aí estão os Anathema para novo concerto em Portugal, pelo 3º ano consecutivo. Depois do Alliance Fest em 2008 e da passagem por Almada e Porto em 2009, foi a vez do resplandecente Teatro Tivoli receber os britânicos, em plena artéria lisboeta.

Os portugueses Slamo conseguiram a oportunidade única de não só abrir os dois concertos de Anathema em Portugal, como de fazer o mesmo nas quatro datas espanholas – Madrid, Sevilla, Granada e Barcelona. Não será de alhear o facto de o baterista Daniel Cardoso ter tocado com os britânicos num concerto na Tunísia, em Julho passado – ele que também faz parte dos Leafblade, side-project de Danny Cavanagh.
Contudo, a actuação dos portugueses esteve longe de ser cativante. Com uma qualidade de som atabalhoada, o concerto acabou por ter momentos desconexos e pouco coesos. Os vinte minutos de prestação dos Slamo não aqueceram o ambiente, principalmente pelo facto de o som da banda portuguesa não ser o mais apropriado para abrir um concerto dos britânicos.

Dez horas da noite: apagam-se as luzes, está na hora de AnathemaDeep abriu um concerto que se estenderia por duas horas e meia. Desta vez, ao contrário do que aconteceu na Incrível Almadense, não houve problemas com a “tape” de introdução. Mas, por outro lado, houve um certo distanciamento desconfortável entre o público e a banda. O problema residiu, quiçá, numa plateia pouco habituada às cadeiras e ao efeito “amolecedor” que elas têm. Não terá sido por acaso que Danny Cavanagh de imediato pediu a todos que se levantassem (num audível português “De pé!”) e acompanhassem com aplausos o ritmo da faixa de abertura de Judgement (1999). O seu desejo foi cumprido a meio da música, música essa que teve de lidar com alguns problemas de som, nomeadamente o excessivo volume no microfone de Vince.

O ambiente continuou morninho. Pitiless e Forgotten Hopes, outro par de músicas deJudgement, não fizeram aquilo que Closer, logo de seguida, fez: fervilhar o sangue dos presentes. Um clássico dos concertos de Anathema, a faixa de A Natural Disaster(2003), com o seu vocoder característico, colocou o público hipnotizado e no ponto ideal para a sucessão de hinos que o esperava. Vince elogiou a beleza do Tivoli e avisou que o setlist seria, provavelmente, o maior de sempre tocado em Portugal pelos homens de Liverpool. De imediato surgiram sorrisos na plateia, que logo aumentaram consideravelmente com A Natural Disaster, música brilhantemente interpretada por Lee Douglas, a voz feminina que há tanto acompanha Anathema. Impossível não aplaudi-la.

Empty e Lost Control, dois dos maiores êxitos da carreira da banda (ainda do tempo em que Duncan Patterson tomava conta do baixo), provocaram o habitual coro que tanto delicia os Cavanagh. Embevecidos especialmente com os fãs que estavam nos camarotes, os irmãos seguiram com One Last Goodbye. E quem não se lembra do que foi esta música em Almada? Vince desfez-se em lágrimas – para quem não sabe, esta música é dedicada à falecida mãe dos Cavanagh – com a enorme força vocal do público. Ontem, no Tivoli, não chegou sequer perto a esse nível de intensidade, masOne Last Goodbye é sempre um dos momentos marcantes do concerto dos Anathema.
A “rockeira” Panic e a celestial Temporary Peace (com mais uma participação notável de Lee Douglas) fizeram recordar que A Fine Day To Exit (2001) é um álbum demasiadamente engolido por Judgement ou Alternative 4 (1998). Flying, talvez uma das mais tristes faixas da longa carreira dos ingleses, fechou a primeira parte do set. E que fecho! Um solo fantástico de Danny levou a que a plateia se rendesse totalmente à qualidade dos Anathema, aplaudindo-os como até então não tinha acontecido.

Prontamente, Vincent avisa os presentes de algo especial. Pela primeira vez em terras lusas, iria ser tocado na íntegra o novo álbum da banda: We’re Here Because We’re Here (2010) – que teve direito a review aqui no Ponto AlternativoDanny pontapeou uma garrafa de água em direcção ao público e deu o mote para Thin Air, faixa de abertura do álbum. Durante uma hora, saboreou-se o registo lançado em Maio passado, cujo véu já tinha sido levantado na última passagem de Anathema por Portugal. De entre as dez belas músicas, o destaque terá de ir para Angels Walk Among UsA Simple Mistake e a mágica combinação entre Universal e Hindsight, que fechou a parte dedicada ao mais recente registo. De destacar igualmente nova incursão de Lee Douglas, que cantou várias músicas de We’re Here Because We’re Here.

Terminado o álbum, o efusivo aplauso mostrou que, afinal, os sete anos de espera desde A Natural Disaster valeram a pena. Cada vez mais sorridentes, os membros da banda simularam uma despedida, na qual ninguém caiu. Afinal, ainda faltavam vários clássicos para serem tocados.

Danny Cavanagh voltou para o palco, pegou na guitarra acústica e deslindou Are You There? a solo, tal como já tinha feito o ano passado. Sublime momento, com o público a não querer que Danny cantasse sozinho; poucos foram aqueles que não emprestaram a sua voz à letra de Are You There?, o que fez com que, logo de seguida, Vince considerasse Portugal não só um dos mais belos países da Europa, como uma das nações com melhor plateia.

E depois fez uma maldade… Obrigou os fãs a escolherem entre SleeplessA Dying Wish ou Angelica, três faixas old-school, duas delas da fase doom dos Anathema. Acabou por ganhar Angelica, do álbum Eternity (1996), registo que marcou a mudança para um som mais atmosférico. A votação foi renhida, mas teria sabido bem ouvir uma faixa dos primórdios.
Shroud of False, música que inicia Alternative 4, abriu alas, tal como acontece no álbum, para Fragile Dreams. Aprimorada com os acordes de abertura de Shine On You Crazy Diamond, de Pink Floyd, foi servida como final apoteótico, como é tradição no live act de Anathema. A amálgama de vozes fez com que Danny, mesmo após o término do concerto, ainda puxasse pelo refrão de Fragile DreamsMaybe I always knew, my fragile dreams would be broken… For you. Haveria melhor forma de acabar?

Reunidos os seis elementos da banda na frente do palco (e feita a devida vénia), ainda houve tempo para que Vince fosse buscar a máquina fotográfica, a fim de tirar uma foto à plateia que compôs o Teatro Tivoli – cujas luzes se acenderam beatificamente no final do concerto. A afinidade que Anathema mantém com o público nacional dá quase vontade de dizer: We’re Here Because You’re Here.

Hoje há mais. Quem estiver no Porto (ou perto) não deixe de ir ao Hard Club!