Talvez o vínculo entre Black Bombaim e os La la la ressonance merecesse já singular toponímia. Bem além de uma frugal união, onde cada projecto despeja na caçarola os seus elementos, o casamento de palco entre ambos desagua numa ímpar superfície. Não, não é fácil destrinçar as space jam dos barcelenses; simples também não é descortinar que elemento pertence às devaneantes incursões dos antigos The Astonishing Urbana Fall – há uma justaposição consistente, bruta e que deixa o experimentalismo vaguear sem trela. Os crescendos, ribombantes nos graves e devidamente rasgados pelo saxofone, mostraram dentes cerrados e vontade de ir a palco mais vezes. É deixar o monstro à solta.

Soberanos do furtivo rock, os Aluk Todolo metamorfosearam a Sala 2 num esotérico compartimento. A lâmpada, faroleira central do trio que constrói na repetição, embrenhou a plateia num narcótico momento. Momento? Sejamos justos: cem minutos, com direito a intervalo, onde “Occult Rock” foi exposto, ao léu e sem adornos, na plenitude. Nunca havendo arriscado tal proeza anteriormente, espanta que os franceses o tenham reproduzido de tão desprendida maneira, vertendo hipnose a cada bisado acorde. De olhar revirado para o interior, a expressão do baterista transcreveu-nos esteticamente o que ali ocorreu: quase duas horas de um experimentalismo que tem tanto de entorpecente, quanto de convulso e psicadélico. Os Can teriam ficado orgulhosos.

Poderá ser muito complicado explicar por palavras, mas Chelsea Wolfe transportou consigo uma estranha aura enigmática que nos fez sentir uma adoração quase doentia por tudo aquilo que ela carrega. Testemunhar a primeira vez que se colocou perante o jogo duplo de microfones e entoou “Feral Love” foi mágico e arrepiante. Algo pouco compreensível, mas existiu naquele momento uma sensibilidade a roçar a sedução. Uma completa rendição de emoção e paixão.Contudo, mesmo este sentimento de atracção também se tornou perigoso e, de facto, a americana moveu sempre consigo o binómio de um anjo que também se podia transformar em demónio e “Mer”, mas também “Tracks (Tall Bodies)”, estiveram carregadas de toda a negritude que ela conseguiu proporcionar. As vozes de Chelsea Wolfe pareciam fazer ricochete nas paredes, tal era a forma incisiva com que eclodiam e eram absorvidas. Tudo foi colocado de forma prolongada, reflectindo a incrível ideia de divindade em todas as suas acções. Como um oráculo a quem se recorre para com “House of Metal” ou “Moses” dar resposta a todas as nossas dúvidas.

A forma como se movia, como cantava ou como pouco gesticulava, faziam supor que o tempo estivesse completamente estático, não se percepcionando nada que fosse momentâneo, mas sim verdadeiramente inesquecível e especial. Maior prova disso, o silêncio total quando sozinha em palco com a viola acústica lança “Lone” e se assistiu em três anos ao momento mais belo e tocante que o público do Amplifest poderá ter testemunhado.

Vícios e virtudes: vício numa plateia que ansiava na urgência pela dose grind; virtude nos Utopium que souberam retorquir sem lapso. A chapada veio logo na intro, cáustica e azeda como ditam as leis de “Fink Dial” dos Iron Monkey – compasso estabelecido para o blast beat, xerife maior de uma banda que não merece continuar em sombras alheias. Prometeu-se o primeiro moshpit e, ainda que tímido, ele surgiu. Sob a batuda de “Vicious Consolation / Virtuous Totality” ficou provado que o Amplifest necessita de vertigem para contrabalançar com as mais vagarosas paisagens. Argumento final: “Like Rats” dos Godflesh, com direito a alternativainvasão de palco.

A descida entre o Hard Club e o Mercedes, com a Ribeira como pano de fundo, fazia prever que a beleza circundante poderia ser repercutida através das camadas de som que tão característicos são de thisquietarmy. O percurso repleto de arcadas serviu também para caracterizar a forma como Eric Quach utilizou a sua guitarra num trânsito e uma constância de paisagens sobrepostas e construções sucessivas de sons. Curiosamente foi a bateria programada, a fazer lembrar Godflesh que trouxe o maior peso, porque das cordas do canadiano aquilo que mais se procurou foi uma certa nobreza atmosférica, apesar de muitas vezes ser o ruído que rompia com a procura da transparência. E, à semelhança do que se vislumbrava nas projecções, existiu sempre a noção que se estava a passar por sucessivas trincheiras sonoras.

Ao contrário do seu ex-marido e daquilo que acontecia naquela que também é a sua ex-banda, Kim Gordon assumiu para si o projecto mais arriscado. Em conjunto com Bill Nace, os Body/Head representaram a experiência mais minimalista de todo o Amplifest. Musicalmente, surgiram como se estivéssemos perante dois escultores a quem é dada uma pedra gigante, a que estes respondem com marteladas esporádicas. Aqui o martelo foi substituído por duas guitarras as quais, com estruturas desafiantes e alheadas entre si, criaram vários momentos dissonantes. A própria voz de Kim surgiu também desconcertada e até desconfortável, mostrando que aquilo que executam em palco merece uma necessidade de entendimento a roçar o perpétuo. Toda esta complexidade tornou-se quase hipnótica. Olhar para a americana em cima dos amplificadores, com uma utilização libertária da guitarra, expressa muitas vezes numa inércia sonora e uma frequente dificuldade de assimilação, não puderam deixar de constituir um teste à nossa compreensão.

De longe a banda que pareceu reunir maior consenso de preferência, os Russian Circles gozam, actualmente, de um crescendo de interesse. Contudo, depois de “Enter” e “Station”, sentiu-se que poderiam estar a caminhar nos discos seguintes para um lado mais previsível e sem capacidade para saírem de um registo já com pouco para apresentar. ‘Memorial’ parece ser esse passo e, tirando o excesso de temas de “Empros”, não existiu uma falha que se lhes pudesse apontar. Os Russian Circles que estiveram no Porto estão cada vez mais irrepreensíveis naquilo que executam.

Depois de “309” marcar a subida ao palco, a sucessão de “Harper Lewis” e de “1777”, do novo álbum, conseguiram justificar na perfeição uma encruzilhada instrumental e sonora frequente, transmitida em imensos momentos pela quantidade de efeitos que Mike Sullivan utiliza, não deixando de ser sintomático que com apenas três elementos tenham a capacidade para criar este tipo de contextos. Mas nem só da guitarra se extraíram os maiores proveitos. Brian Cook não fez cócegas ao baixo e este representou uma força incrível, mostrando a forma como deve ser sempre tocado: forte e não apenas de acompanhamento. A favor dos americanos joga o factor de cada instrumento ser perfeitamente perceptível, ocupar o seu espaço, percorrendo o seu caminho de forma isolada, mas para chegar a um propósito final: o desabar num turbilhão sonoro com a emergência de não levar nenhuma nota para desnecessários momentos lentos, exceptuando aqueles que marcaram o incrível regresso de Chelsea Wolfe para dar voz a “Memorial”. Se assim for, sejam sempre bem-vindos.

Quem abandona a zona de conforto, i.e. o palco, e se espalha pela plateia, é digno de lograr pontos positivos. Recordando, pela sua insânia, as fanáticas noites à Lightning Bolt ou à Monotonix, o duoPutan Club fez o que quis da Sala 2: a baixista, empurrando quem encontrava, colocou-se num vértice. François Cambuzat, o homem L’Enfance Rouge, situou-se noutro. O público, esse, deixou que as paredes fossem amortecedores e o stage o seu sofá de início de madrugada. Houve noise, houve pulsar industrial. Imagine-se que Pharmakon tinha vindo até ao Porto e os Putan Club se tinham deixado ficar pelo Mercedes… Não se imagina.