A performance de Jozef van Wissem mostrou que o local onde se realiza um concerto é, por vezes, crucial e influenciador daquilo que se retira da música. Num local sagrado e com o chamamento de público extra Amplifest, foi curioso observar algumas pessoas que certamente andavam a deambular pela Sé, entrar nos Claustros e sorrirem enquanto ouviam algo para o qual não estariam nem preparadas, nem certamente à espera. Jozef incorpora no seu vislumbre ao passado, uma versão coerente com os nossos tempos. Um tipo de som que muito dificilmente alguém poderá dizer que não é tocante. Humilde, terno, mas sem a aparência de alguém que tocaria um alaúde, o seu dedilhar pelas cordas foi apaixonado. Tendo em conta o sítio e a forma como projectou o instrumento ao nível da sua cabeça, poderia ser dito estar-se na presença de algo mágico e, como tal, fora dos segmentos sacros.

Com composições que submetiam para os tempos medievais,Jozef teria a capacidade para ser a pessoa que um grupo de feudatários chamaria para os seus aposentos. Daquele alaúde desfrutava-se um som que poderia ser tocado num desses eventos perdidos no passado, em que um simples tocador, vindo da plebe, tem por sua incumbência a tarefa de entreter uma plateia. Contudo, para ele este formato teria um sentido redutor, as suas cordas e a forma como as percorre, mereceriam algo mais que puro entretenimento.

Só os mais incautos terão ficado surpreendidos com a definitiva internacionalização dos Black Bombaim. Seja no deserto do Saara, seja na sala 1 do Hard Club, os barcelenses exauram doses cavalares de groove. E para o Amplifest até levaram um reforço:Tiago Jónatas voltou a actuar com o trio, adicionando o teremim a um titã que está cada vez mais peremptório. As jams “tripantes” dos portugueses estão mais musculadas e densas e isso advém de uma já sólida experiência adquirida a esbofetear plateias com uma bateria irrequieta, um baixo maciço e uma guitarra que viaja por onde e como quer.

Encobertos por uma nuvem de fumo, o duo, centrando-se numa estranha mistura entre as componentes mais negras do industrial e do electrónico, debitou aquilo que poderia ser utilizado numa procissão fúnebre. A cada batida e a compasso, os que carregam o caixão, movimentam-se em conjunto até ao local final, onde a negritude esperaria pelo corpo morto. Utilizando doses volumosas de distorção de guitarra, não se adquiriu um único momento mais lento, mais pausado. Agressivo e negro, assemelhava-se a uma orquestração vinda dos locais mais distantes e mais sofridos. Ao longo de toda a actuação sentiu-se uma espécie de deambulação pela Divina Comédia de Dante. A descida das almas por todos os níveis do pecado, para no fim chegar à presença de Caronte. Com o som obscuro dos Necro Deathmort, qualquer alma acompanharia de agrado esta personagem. Como ver a morte com a sua foice afiada, a aproximação do inferno faz-se sem relutância. Inebriadas pelo som mórbido, cada alma é conduzida para a última fase da sua existência. Com a sonoridade dos britânicos, só restaria dizer, bem-vinda sejas Morte.

O regresso de Eugene S. Robinson a Portugal para um real concerto era há muito solicitado. Apesar do pequeno strip que ocorreu, não houve espaço para chegar até à cueca de luta-livre. Na verdade, ainda bem que assim foi, porque isso teria desviado a atenção daquilo que o duo faz em termos musicais. E, mais concretamente o quão incrível é Niko Wenner que, apenas com a sua guitarra, consegue preencher sonoramente aquilo que muitas bandas não conseguem com um aglomerado de instrumentos.

Não se sentiu durante um único segundo a falta de algo mais, sem ser a voz profética de Eugene e as cordas de Niko. Para o compositor de São Francisco, cada segundo é uma luta. A cada momento em que soletrou ou cantou, assumiu uma postura frequente de fúria e mesmo desafio. Sentado ou de pé, parecia alguém que prega sobre as vicissitudes e complicações da vida.Eugene é, de facto, um espectáculo dentro do espectáculo, mas a verdade é que sem Niko seria inglória a sua declamação. Misturando segmentos tão díspares como blues, camadas de rocke jazz, pareciam uma daquelas bandas que em New Orleans, no final dos anos 50, cantam sobre a descriminação racial. Ela já não existe de forma tão clara, mas no caso de haver qualquer injustiça é esperar que ela seja decretada e explicada pela voz de Robinson. Só assim será compreendida em toda a sua extensão.

Estes italianos dão mais do que concertos: dão aulas. Não é ousado afirmar que, depois do que se assistiu no Hard Club, osUfomammut são a banda que melhor personifica aquilo que deve ser um grande concerto de doom. Não, não é impossível reproduzir fielmente um complexo disco como Oro. Pelo contrário, tocando tanto Opus Primum quanto Opus Alter, o trio romano superou em larga escala aquilo que apresentou no seu duplo trabalho de 2012. Se grupos como os Sleep ou os Electric Wizard têm dificuldades (ou será preguiça?) em transferir toda a sua veemência para palco, os Ufomammut conseguem-no com uma brutalidade capaz de deixar knock-out qualquer audiência. Som perfeito, uma execução sem pregos, sincronização ideal com as psicotrópicas projecções e uma banda totalmente satisfeita por ter a plateia portuense a seus pés. Pudera. Concerto exemplar, que ficará certamente nas páginas douradas do Amplifest.

A beleza dos Godspeed, em parte, deriva do facto de eles serem tão humanos quanto qualquer um de nós. Não há neles ponta de superioridade ou uma ínfima demonstração de prepotência e autoridade. São somente um grupo de amigos, capaz de provar que, em sintonia, o ser humano é capaz de criar algumas das mais esplendorosas obras musicais das últimas décadas.

Entrando calmamente em palco, os GY!BE prontamente iniciaram uma antecâmara drone, que só parou na foz de Mladic, a exímia e balcânica rainha do novo Allelujah! Don’t Bend! Ascend!. Ver os canadianos em acção, transferindo para palco toda a sua complexidade criativa – que, diga-se, ganha um peso enorme ao vivo, capaz de fazer corar muitas bandas de metal – obriga-nos colocar em causa não só todo o restante cartel post-rock, mas também bandas como os Secret Chiefs 3. E não é só a música: a adição de quatro clássicos projectores, que vão deslindando exímias películas, confere à actuação dos Godspeed uma sobrenaturalidade que ultrapassa as simples barreiras de um concerto. Surpreende, também, que embrenhada numa parafernália de cabos, pedais e instrumentos amiúde, a prestação flua com tranquilidade e se interligue eficazmente. Sleep, trazida desde o icónico Skinny Fists, colocou definitivamente o público em veneração e a nova Behemoth, com um apogeu abismal, levou não só a plateia ao ponto de ebulição, mas também uma das guitarras à obturação.

A banda prometeu voltar com o problema resolvido. Voltou. A guitarra não. “Desculpem Porto, a guitarra está como o Governo de Portugal e a União Europeia: partida”. O final compôs-se com um violino e um contrabaixo, lentos e sombriamente harmoniosos, servindo de pano de fundo para a saída de Godspeed You! Black Emperor, um por um. Poderá não ter sido o encerramento ideal para o Amplifest 2012. Mas, atrás de si, fica um concerto sublime, que irrigou esperança em tempos negros.