Numa sociedade moderna que aos fragmentos se desmorona, corroída por uma decadência que se edifica na mentira, é recompensante encontrar algo que perdura e não engana. OsAmenra são um desses singulares casos – o tempo arrasta-os e concede-lhes uma bênção de praticamente dez anos de existência, onde pontificam já alguns dos melhores discos de post-metal/sludge. Considerá-los somente mais um filho do legado dosNeurosis é, no entanto, um erro. Há neles demasiado: uma iconografia única, assente numa conspurca atracção pela simbologia cristã; uma escola de influências que não se esqueceu de absorver a demência de Dwid Hellion; e, sim, um som cada vez mais seu e cada vez mais distante de se rotular com base em precedentes.

Mass V sublinha e atesta as características que constituem os Amenra como uma fortaleza no nicho onde se inserem. Tentando encontrar a sua própria cadência desde Mass I, os belgas revelam-se em 2012 cabalmente próximos àquilo que ambicionam. E ela, a cadência, é a base de toda a composição: ao seu redor erguem-se os lancinantes riffs, numa escada que não aponta ao céu mas que, pelo contrário, indica o purgatório como destino. Cada disco dos Amenra traduz-se auto-expiação e, se dúvidas há sobre isso, ouça-se Colin H. Van Eeckhout a gritar ao longo dos quase quarenta-e-um minutos de duração de Mass V. Visivelmente mais distantes das influências hardcore que divisaram os seus primeiros anos de vida, a cadência que os Amenra patenteiam neste trabalho mostra-se solene, cerimonial e ritualista – três adjectivos que mais sentido fazem se em conta tivermos o facto de o álbum ter sido gravado numa capela na Floresta das Ardenas. O tradicional modus operandi das composições está aperfeiçoado: os build-ups, que inevitavelmente desaguam num gravitacional turbilhão, mostram-se atmosfericamente mais densos e emocionalmente tão ou mais negros daquilo que podemos encontrar nas emblemáticas Am Kreuz ou Razoreater – com a adição de momentos em que Colin se entrega a um sorumbático spoken word. À Mon Âme, a título de exemplo, confessa unsAmenra definitivamente aprimorados na arte de erigir e revolver as suas próprias criações, estendendo-se ao longo de quase um quarto-de-hora, sem que perca o horizonte e, com isso, o interesse.

O novo álbum dos belgas é também um essencial passo para a sua afirmação como uma das cimeiras figuras na actual música extrema. Não só conta com uma produção intocável, a cargo do renomeado Billy Anderson, como tem no seu arcaboiço o selo da Neurot Recordings. Se estes dois factos não bastam, Scott Kelly empresta a sua já histórica voz a Nowena I 9.10, a derradeira faixa de Mass V, naquela que é a maior demonstração da veemência emocional e artística de um disco que marca o ano de 2012.