Quando os Aluk Todolo surgiram, há cerca de uma década, eram normalmente associados ao black metal. O lado evidentemente extremo e obscuro de “Descension” e o passado dos seus membros em bandas como Vediog Svaor, DimatregonBlacklodge certamente ajudava à catalogação da banda. Três álbuns de longa-duração e uma série de outros lançamentos mais tarde, fica claro que o misterioso trio francês se movimenta algures num krautrock muito extremo do que qualquer outra coisa. Evidência disso mesmo foi “Occult Rock”, trabalho lançado o ano passado e que vai ser tocado na íntegra aquando da passagem dos franceses pelo Amplifest, servindo naturalmente de mote para a conversa com o guitarrista da banda, Shantidas Riedacker.

No próximo fim de semana regressam a Portugal para tocar no Amplifest. Já cá tinham passado em 2008 para actuar no Out.Fest e em 2010 quando tocaram no Porto. Têm boas memórias dessas passagens?

Sim, o concerto do Out.Fest foi um dos nossos primeiros fora de portas. Lembro-me que o David Maranha também estava no alinhamento e foi uma experiência muito boa. Sobre a passagem pelo Porto, basta dizer que foi o melhor concerto dessa digressão. Sempre que aí fomos as coisas correram muito bem, tivemos boas condições e recebemos feedback muito positivo. É bom estar de volta.

Para quem nunca vos viu ao vivo, como é que descreverias uma das vossas actuações?

 Uma deflagração sónica, a explosão de luz que rasga a escuridão da noite, um transe doloroso, um pesadelo ao contrário… Nio fundo não te sei dizer muito bem, já que só posso falar do ponto de vista de alguém que vive esses momentos em cima do palco.

Foi anunciado que a vossa actuação consistirá no “Occult Rock” na sua totalidade. Achas que é o disco que melhor captura o que a banda é em palco?

 O “Occult Rock” foi composto tendo em vista os nossos concertos e resulta precisamente da forma como a nossa música evoluiu conforme fomos fazendo experiências com ela em palco. Como foi gravado ao vivo no estúdio soa bastante próximo daquilo que costumamos fazer. O álbum é uma cristalização do que são as nossas composições e cada concerto uma reinterpretação das mesmas. A primeira vez que o vamos tocar inteiro num concerto vai ser no Amplifest.

Uma das marcas mais características das vossas actuações é a iluminação consistir numa única lâmpada de intensidade variável pendurada no meio do palco. Como é que isto surgiu?

 Quando começámos a banda em 2004, costumávamos ensaiar bem cedo pela manhã durante horas a fio. Tocávamos em escuridão total com excepção das pequenas luzes vermelhas dos amplificadores.  A certa altura encontrámos essa luz no meio da escuridão e nunca mais parámos de a seguir. Quando foi a altura de dar o primeiro concerto, como não queríamos a iluminação colorida tradicional, trouxemos a nossa própria luz e desde então que nunca demos um concerto de outra forma.

Em 2011, lançaram uma colaboração com os Der Blutharsch And The Infinite Church Of The Leading Hand. Como é que foi a experiência de escrever música com alguém de fora da banda, ainda para mais tendo em conta a diferença de géneros? É algo a repetir no futuro?

Como foder a mulher de outra pessoa, o resultado tem de ser um pequeno bastardo e foi isso que aconteceu. Depois de gravar o álbum ainda demos um concerto em Bruxelas [em 2012], mas por não há mais planos para fazer o que quer que seja com Der Blautharsch.

Algum do material presente em “Occult Rock” foi descrito por vocês como sendo tão antigo como a banda. Se não nos enganamos, a base da “Occult Rock IV” é a mesma que a do 2º tema da colaboração. Porque é que decidiram ter mais do que uma versão editada?

 A música começou a fazer parte do alinhamento dos nossos concertos e acabou por evoluir conforme a fomos tocando ao vivo. Incluir aquilo em que se tornou no álbum acabou por ser uma decisão muito natural. Aos nossos olhos, acabam por ser duas músicas completamente diferentes. É verdade que têm a mesma base harmónica, mas é usada para fins completamente distintos e nesse sentido a versão do “Occult Rock” é uma reinterpretação daquilo que escrevêramos anteriormente.

Entre álbuns, colaborações, EPs e splits, têm mantido um ritmo bastante regular de edições. Que é que podemos esperar num futuro próximo?

Neste momento estamos focados apenas nos próximos concertos e na escrita do próximo álbum.

Com álbuns como “Descension” e “Finsternis” a serem muito mais experiências de estúdio e “Occult Rock” a ser direccionado para o palco, como é que vai ser o novo material?

 O próximo álbum vai ser escrito tendo em vista ser tocado integralmente ao vivo. Estamos a trabalhar tanto ao nível de novos conceitos como sonoridades. Ouvimos vozes e elas dizem-nos o que fazer.

 Como é que o vosso processo de escrita costuma funcionar?

É bastante complicado de explicar. É um processo contínuo e ininterrupto. Escrevemos, gravamos, deitamos fora e repetimos o tempo todo. A composição é feita pelos três em conjunto e não temos propriamente um método específico. A música pode surgir de uma palavra, de um som, um padrão de bateria ou um conceito. Não temos qualquer regra nem barreira no nosso processo de criativo, apenas a necessidade de experimentar.

Finalmente, há alguma banda do alinhamento do Amplifest que estejam particularmente interessados em ver?

 Sim, de certeza que não vamos faltar ao concerto de Pharmakon. Conhecemos a Margaret [Chardiet] há dois anos quando organizámos o primeiro concerto dela em Paris, a abrir para Burial Hex. É uma grande artista e estamos curiosos em ver como é que a música e a performance de palco dela evoluíram desde essa altura.