É curioso verificar que os ambientes do Black Metal se estão a ultrapassar sucessivamente. Os objectivos com que são provocados pouco se alteraram, admita-se: negritude e depressão. A novidade no Black Metal é a forma como esses ambientes se procuram – e, felizmente, em prol da qualidade da música. Muito marcado por más produções, o género perdia em beleza o que ganhava em ruído, algo que se torna cada vez mais obsoleto. Um exemplo excelente disso são os Altar of Plagues, que trazem para a baila uma exploração do ambiente ainda atípica no género.Não só o fazem com jogos de silêncio e de guitarradas solitárias e ruidosas, como com a alternância entre a distorção e o som limpo. Isto acrescentado a um sentido melódico impressionante, durante um álbum inteiro e de forma constante, dá um trabalho digno de ser sublinhado: falo, claro, do álbum de estreia do trio irlandês,White Tomb.

Há um elemento curioso neste trabalho: a separação propositada em duas fases. Earth, com duas faixas, e Through the Collapse, com outras tantas. A linearidade com que cada uma das faixas complementa a sua par e, principalmente, a forma como isso é feito são impressionantes, sem deixar de ser curioso, também: ouvir uma música e depois a outra, da mesma fase, faz com que se retire uma experiência completamente diferente da audição de cada uma – intensificadora dos ambientes, diria.

A parte curiosa é, precisamente, o facto de a primeira parte ser muito mais associável ao Black Metal do que a segunda, sempre mais pausada e mais melódica. Mas, mesmo com esta diferença de uma parte para a outra, é um erro tentar ouvir uma sem que se ouça a outra; daí a denominação “fase”, no início deste parágrafo, porque as segundas partes funcionam verdadeiramente bem como uma continuação, uma exploração das primeiras.

Outro elemento que tem, obrigatoriamente, de ser explorado é as passagens de faixa para faixa (e aqui pouco ou nada importa a fase). A excelência com que são feitas demonstram um trabalho de composição de excelência e uma produção invejável – algo, realmente, pouco comum no género.

White Tomb é, claro, um dos álbuns mais sólidos do ano. Tem alguns dos riffs ais intensos e vertiginosos e é um dos trabalhos com ambientes mais eficazes que ouvi nos últimos tempos: tem tudo no sítio, tem melodias realmente bonitas e uma produção boa. Este último pormenor ajuda e muito a esta eficácia da música dos Altar of Plagues, que aproveitaram muito bem a clareza da sua música para atingir os ambientes que no Black Metal não raramente se tenta atingir com o ruído. É complicado dizer se esta é uma qualidade que devia ser transversal a todas as bandas dentro desta onda (basta saber que os Wolves in the Throne Room, apesar de recorrerem a grandes produtores, continuam a utilizar meios muito rudimentares para gravarem os seus álbuns), mas a verdade é que com o trio da Irlanda resultam bem. Muito bem, aliás.