Desde a primeira audição de Teethed Glory and Injury que a qualidade do disco ficou clara: não que se trate de um registo de impacto imediato, mas não há dúvidas de que se trata de uma das mais finas gravuras da música pesada recente e essa é uma ideia que salta desde logo á vista. Mais importante, é uma ideia que tende a ganhar vida a cada rodagem.

Mesmo perante poucas dúvidas, o novo registo de Altar of Plagues, na ausência de cor, ganha uma vida para além do preto e branco típico do metal. Por se tratar de uma narrativa – e merece este nome pela coerência do alinhamento – que foge discretamente ao black metal que marcou o percurso do trio irlandês desde os primeiros EPs, mas que não deixa os elementos mais bem conseguidos do percurso de James Kelly enquanto compositor e produtor, cada música desempenha um papel essencial na experiência de ouvir o disco e de o absorver. Em definitivo, não há falhas em Teethed Glory and Injury.

As músicas, numa abordagem mais curta, são de forma concisa aquilo que antes os autores de Mammal faziam em malhas com mais de dez minutos. Todos os argumentos de músicas comoNeptune is Dead ou a incrível All Life Converges to Some Center, que podiam dispersar, estão aqui condensados, sendo explorados um a um na procura de um ambiente impactante. Não será por acaso que Mills explora um lado mais textural, introduzindo os ambientes industriais que vão servindo de prólogo para músicas como Scald Scar of Water, Twelve Was Ruin ou A Body Shrouded.

O resultado pende entre o sufoco típico dos géneros extremos da música pesada e o hipnótico que sempre caracterizou as músicas sempre espaciais de Altar of Plagues, a que os elementos electrónicos – que surgem como elemento novidade neste disco, mas que James Kelly tem vindo a explorar a solo enquanto WIFE– ajudam, sendo que toda a vida contida em cada faixa do disco aponte para um clímax sem cair nas soluções canonizadas que eventualmente levam ao blast beat. Teethed Glory and Injury não é, de todo, um disco de guitarra, é um disco de em que cada instrumento, cada som, tem um papel preponderante na música, em que o baixo não raramente assume o peso da música (como acontece em Twelve Was Ruin) e em que a bateria recorta a música em balanços e contra-balanços para contrariar crescendos previsíveis. É um disco em que, à semelhança do seu antecessor, o fecho e a sua natureza ritualística elevam a fasquia para a próxima audição e que, mesmo assim, não fica a perder em nada.

O toque de midas deste álbum é, em suma, a forma com que cada elemento encaixa na música – porque, mais do que nunca, cada som existe em Altar of Plagues em relação a outro, em relação a um todo que, de forma incontestável, é intenso, pesado, belo e de uma subtileza que não deixa de ser vistosa. O build-up de A Remedy and a Fever alonga-se até que se justifique o êxtase, que se pinta em cores aguerridas e sanguinárias como o black metal exige; Found Oval and Final introduz-se a si própria com um momento lo-fi que é de imediato quebrado com um berro e uma bateria harmoniosamente em catadupa; e o final de Scald Scar of Water é uma reza pagã em modo exorcista, uma catarse. Cada momento prepara o próximo de forma precisa, e o final deReflection Pulse Remains é, em definitivo, o derradeiro sopro do disco, o encerramento merecido.

Nada está fora do sítio, nada é imediato, mas tudo é evidente.Teethed Glory and Injury é um disco como poucos.