«Normalmente, nos grandes centros como Lisboa, existe um público mais crítico e mais exigente. E, entre aspas, às vezes cantas para um público mais de artistas: cantas para DJs, cantas para outros rappers.», foi isto que Allen Halloween nos disse em entrevista, minutos antes de entrar no palco do também lisboeta São Jorge. E se o concerto de Novembro se revelou memorável, o de ontem certamente não entrará nos melhores da sua carreira.

Talvez, como sugeriu o rapper de Odivelas em conversa com o PA’, a noite passada tenha sido uma verdadeira Noite da Lisa. “Aqui nunca me dão nada”, repetiu várias vezes Halloween, enquanto o público, estático e amorfo, parecia por completo desconhecer os temas de A Árvore Kriminal. Silêncios incómodos entre temas e tímidos aplausos acabaram por liquidar um ambiente que poderia, de outra forma, ter transfigurado todo o concerto. Até porque, sublinhe-se, Halloween foi Halloween: de capuz inamovível e flow intocável, o músico não diminuiu a agressividade com que ataca as suas diatribes, sempre na companhia de Lucyfer.

Do reino dos ODC Gang, Swag delatou-se inesperadamente como um dos momentos altos. Voraz nas rimas e mordaz na introdução, o rapper deu uma alfinetada a toda essa geração do #YOLO: “Sabem aquelas palavras que vocês gostam de usar, mas depois são como as miúdas que julgavam especiais? Aquelas que, no fundo, já rodaram o bairro todo? Aconteceu o mesmo comigo com a palavra swag. Eu gostava tanto dela, mas caiu na boca dos gajos errados”. Só que a “plateia de artistas” apenas mostrou coração quando Halloween recuperou as incontornáveis Mary Bu e Fly Nigga, tocadas consecutivamente e colocadas estrategicamente antes do encore – de tal forma, que vários abandonaram a sala, julgando a noite por terminada.

Mas Allen voltaria para uma Mary Witch que clama permanentemente pelo seu Exorcismo e para outro distinto momento ­– dedicada a Jeremy, Procriar resgatou os predicados capitais do seu álbum de estreia: a taciturnidade e a melancolia, sobrepostas de irrepetível maneira. Se, depois disto, no Porto já lhe estariam a “oferecer quarenta charros”, no Cais do Sodré a apatia de quem assistia manteve-se até no Recreio, que soltou as funestas cortinas sobre uma noite que, feito o devido balanço, ficou abaixo das expectativas. Esperava-se, tal como anunciado, que a primeira edição das Noites da Lisa revelasse algumas surpresas (convidados especiais e material inédito), mas o início de madrugada no MusicBox saldou-se por um concerto semelhante ao oferecido no mesmo espaço, em Dezembro de 2011.