Allen Halloween - "Híbrido"
7.5Overall Score

O modus operandi promocional sui generis do rapper guineense – lançar quase todos os sons do futuro álbum no Youtube – adquiriu, desta vez, um certeiro tom visionário em sintonia com a actualidade mediática do país. Em Fevereiro, tumultos no bairro da Cova da Moura, acusações de tortura de jovens desse bairro contra agentes da PSP de Alfragide. Pouco tempo depois, sai “Bairro Black”, com participação do retornado pioneiro do rap nacional General D. Um relato que transfigura os episódios rotineiros dos bairros periféricos das cidades, espelhando um cenário que apelidam de «reguetização». Palavra repetida em tom de manifesto, depois deHalloween estrear o beat old school, de loop curto, com mais uma daquelas interpretações que não nos saem da memória – é desconcertante, alimentada por uma raiva indecifrável, que tanto cospe ódio incurável pelo poder que afirma repressivo, como amor sem fronteiras direccionado àqueles a quem chama família – «o preto, o cigano, o pobre branco». Cerca de um mês depois do episódio na Amadora, surge o viral vídeo do PÚBLICO em que seguranças de bares da rua cor-de-rosa no Cais do Sodré espancam e espezinham (torturam?) um jovem negro.

Aquando daquela patetice viral, que mostrava duas miudinhas escudadas pelos seus gangsterzinhos a esbofetearem com vontade um rapazito na Figueira da Foz, o rapper lançou “Mr. Bullying”, à semelhança do que sucedeu com “Bairro Black”. Uma história contada na primeira pessoa, na vertigem da paranoia e do medo, num ambiente esquizofrénico, confrangedor e desarmante que, desde 2006, deixou meio mundo incapaz de demonstrar indiferença a “Dia De Um Dread De 16 Anos”, do seu primeiro álbum “Projecto Mary Witch”.

Na derradeira faixa de “A Árvore Kriminal”, confessava uma “Redenção” dos erros cometidos por um jovem do gueto, sem pedidos de desculpa, lúcida das suas causas e das consequências que quase parecem cravadas nas suas testas. Nos primeiros minutos de “Híbrido”, conta-nos a história de um bandido envelhecido pelas paredes da prisão, acabado de sair e sem rumo – um destino tão semelhante para o qual caminha um qualquer “Gangsta Junkie”. Um John Wayne na selva de betão, deambulante dos bairros mal-afamados da capital, munido de paleio suficiente para dealar coca mais cortada do que o nosso orçamento aos camones do Bairro Alto e diluir-se nas ruas até chegar ao refúgio de escombros onde reside – «Police, guarda masé’ isso / Aqui eles conhecem-me bem / Melhor que a minha mãe / I must go, man / Nice to meet you, otário / My name is John Wayne.»

Híbrido por duas razões: primeiro, porque este disco enquadra as sonoridades do primeiro e segundo registo misturadas; em segundo lugar, porque, tal como acontece com as criaturas hibridas, não se reproduzirá – este, pela voz do próprio, será o seu último álbum. E, se tal se perpetuar, não lhe poderemos exigir nada – o rapper despede-se como sempre o conhecemos. Parece que foi buscar o mesmo programa de Playstation com que produziu grande parte do seu primeiro álbum, ao mesmo tempo que afina o psicadelismo e experimentalismo explorados em “A Árvore Kriminal”. Os paralelismos temáticos patentes entre “O Convite”, “Crazy”, “Um Jardim À Beira Mar” e “Debaixo Da Ponte”, em querapper desvenda frames da sua vida, metaforizando as tentações da «má vida» que, no fundo, diz ser a de apenas mais um sobrevivente. Neste terceiro registo, são continuados por “Bandido Velho, “Zé Maluco”, que fabula a dependência de drogas e o despertar para a mesma; “Rei Da Ala” mostra que até o indivíduo mais bera pode enlouquecer de solidão; “Livre Arbítrio” é um contundente sumário da narrativa cuspida pelo rapper desde 2006 – e desde então o rap em Portugal não mais foi igual – e a cicatriz permanecerá.

Eis Allen Halloween, igual à realidade da qual emerge