Mal tinha começado o ano e o Bacalhoeiro já se preparava para receber uma despedida: os Adorno reuniram-se para dar aquele que se prevê que seja o seu único concerto em Portugal em 2011. Ao entrar no espaço já era possível perceber que se tratava de uma noite diferente, não só porque a casa estava cheia mas também porque parecia ter-se formado ali um grande círculo de amigos, “fenómeno” que contribuiu para criar um ambiente muito positivo que carregava uma certa nostalgia. Chegada a hora, os primeiros acordes levaram todos a descer para a cave, onde foi difícil instalar as várias dezenas de pessoas que marcaram presença neste espaço.

Iniciou-se a marcha e rapidamente se atingiu a cadência que viria a dominar todo o concerto: uma presença intensa e competente mas com grande simplicidade, sem complexos nem pretensiosismos, transpirando honestidade e boas vibrações.  Os quatro membros habituais foram desta vez acompanhados de um quinto elemento (Óscar, I Had Plans), que acrescentou à banda não só mais uma guitarra como um reforço nas vozes e alguma densidade sonora. Tocados os quatro primeiros temas, a banda dirigiu-se ao público e Braulio Amado agradeceu a presença de todos, relembrando que um dos propósitos do concerto foi o lançamento do split com os belgas Black Heart Rebellion. O disco infelizmente não foi finalizado a tempo e não está ainda disponível. Para além disso, recordou, como foi divulgado, que este concerto deverá ser o único do ano no país (dois dos elementos vão emigrar), mas também frisou que nem por isso a banda vai baixar os braços.

O ritmo manteve-se e as três músicas que se seguiram, começando com Connections, elevaram a transpiração na sala e a adesão do público, que chegou a cantar em coro e com espírito de grande comunhão com a banda. Numa última intervenção antes das últimas duas músicas, João Pinheiro fez questão de dedicar Meaning a amigos de longa data e às namoradas(os) dosAdorno, admitindo, contudo, que este foi um gesto inédito mas que naquele contexto e envolvência fez todo o sentido e pareceu bastante autêntico. Fruto de tocarem em nome próprio, o setlist foi mais longo que o habitual e terminou com Timeline, percorrendo perto de uma dezena de temas, muito embora houvesse a vontade, expressa por alguns, de ouvir mais.

Muito para além de ornamentar a cena underground em Portugal, este projecto já com quatro anos veio enriquecer o panorama alternativo mas sobretudo mostrar que o espírito “Faz tu mesmo” é bem mais que um chavão e não só está vivo como está ao alcance de todos, provando que fazer música de qualidade, mostrá-la em tours nacionais e internacionais, ano após ano, e editar discos não depende de um contrato com uma editora, de um manager ou de uma promotora. Que esta noite tenha sido não mais que um até já!