Se houvesse uma lista de coisas que fizeram o punk nascer só para as mandar bugiar, as reviews e críticas musicais estariam, certamente, no topo. É por isso com especial gozo que se escreve sobre as bandas do género que emulam o seu espírito com maior honestidade. Se esquecermos o significado político (quando existe, claro), o que há a dizer de 29 minutos de música rápida, feita sem outra urgência senão chegar ao fim, tendo ofendido pelo meio o máximo número de pessoas possível, e sem outra pretensão que não a diversão e a catarse? É tão inútil como esmiuçar a estética dum arroto.

Isto ajuda a explicar o paradoxo de que quando se fala em AC4 se comece por mencionar as “estrelas” que compõem a banda, como Dennis Lyxzén, o mítico vocalista de Refused e de The (International) Noise Conspiracy, ou Christoffer Jonsson, baixista de D.S.-13, que se junta agora à banda para substituir David Sandström, outro ilustre membro de Refused. Foram estes “pormenores” que contribuíram para que AC4 recebesse desde que nasceu muito mais atenção do que outras bandas semelhantes. Até porque para uma grande parte dos fãs das bandas mais conhecidas de Dennis, mais desligados da história que as fez germinar, AC4 é uma espécie de piada: é como uma estrada a direito, sem curvas, sem qualquer desvio ou paragem, sem distracções – quase que se poderia dizer previsível. É, portanto, tudo aquilo de que as outras pareceram querer fugir ao explorarem um som mais progressivo ou mais orelhudo, consoante o caso. AC4 é, além disso, a banda em que Dennis põe de lado as capas de mosqueteiro que usa em T(I)NC ou as camisas engomadinhas dos Refused, para ir buscar ao armário as calças manchadas e as t-shirts todas ruças dos clássicos.

Se julgam que isto é algo negativo ou sinónimo de aborrecimento, é sinal de que punk/ hardcore não vos diz grande coisa. Talvez seja altura de resolver esse problema e AC4 até pode ser uma boa forma de começar. Como já deu para perceber, não descobriram nem inventaram nada (“missão cumprida”, diriam eles). No entanto, o seu som old school tem a raiva do que de melhor se fez na Inglaterra do final dos anos 70, e tem, acima de tudo, a energia das bandas que deram nome ao hardcore nos Estados Unidos dos anos 80. Juntem-se a estas referências algumas das bandas punk/ hardcore mais interessantes que surgiram nos países nórdicos nos últimos anos, como os dinamarqueses Gorilla Angreb ou os suecos Regulations (com quem partilham o baterista, Jens Nordén).

Foi assim com o registo antecessor com que se estrearam e continua a ser com este recém-lançado Burn the World. Em relação ao trabalho anterior não há, por isso, grandes mudanças: não ficou mais simpático, continua igualmente directo e os alvos são basicamente os mesmos. A única diferença está na qualidade do som, menos roufenho e merdoso, o que não significa que a polidez sonora de Burn the World faça perder a crueza e a atitude raivosa.Curva, o tema que abre o CD, clama logo por um circle pit gigantesco e por um tumulto em frente ao palco (ou em frente às colunas) para acompanhar o seu coro, e em Who’s the Enemy? é-nos imediatamente recordado um inimigo já perseguido nos temas mais antigos: a polícia, um daqueles ódios universais (quer estejamos na Suécia, em Portugal ou na Etiópia), pois em todo o lado assume, com a mesma entrega alegre dum cão, a manutenção da tirania e a perseguição a tudo o que pretende romper com a pasmaceira quotidiana. O resto vem por aí fora a uma velocidade frenética, em temas que raramente chegam aos 2 minutos, a bramir impropérios e mensagens cáusticas de forma ininterrupta. Diplomacy is Dead, uma das melhores músicas do CD, é um “fuck you” monumental à hipocrisia instalada como um vírus naquilo a que se convencionou chamar “democracia”, não sendo de admirar, como tal, que Burn the World seja uma autêntica declaração de guerra e um apelo incendiário contra o tédio (“Boredom is burning the eyes out of me / Bigger cages is not what I need”, grita-nos aos ouvidos Breakout).

Por outras palavras, aquilo que Dennis costuma explicar com muitos floreados em T(I)NC ou em Refused, manejando um invejável conjunto de referências teóricas, em AC4 é-nos cuspido na cara, já tudo mastigadinho e com dentes à mistura, num espírito renovado e com um som bem mais intenso e intratável. A raiva contagiante de Burn the World lembra-nos que, ao contrário do que se possa pensar, as coisas pela Suécia não andam muito melhores do que por cá. Let’s burn the world!