As metáforas e os trocadilhos são o recurso mais óbvio na escrita de uma crítica de música. Quando se fala em A Thousand Words, o paradoxo de tudo o que pode ser dito problematiza, invariavelmente, o trabalho do escriba que não pode deixar de se agarrar aos clichés de que tudo o que há a dizer sobre um nome que assenta, mais do que o normal, nas palavras. O que está neste nome não pode ser impresso, mas está bem cravado nas suas músicas.

Não precisarei do dicionário todo para explicar de que forma os autores do deliciosamente sujo “Sinners” EP mostraram, em concerto no Porto, como as suas malhas destilam o mesmo negrume e apetite pela destruição criativa que se ouve nos registos de estúdio, mas não me coibirei de usar os léxicos mais comuns da preguiça crítica: haverá porradona, haverá baixos javardões, haverá guitarras demoníacas e o bailado hardcore neste texto, à semelhança do que houve no concerto que me deu, como prémio, um pedaço do almaemformol que recebeu os A Thousand Words.

Não será difícil destruir o espaço portuense, e certamente que não é feito fazer pedaços do seu tecto e das suas paredes caírem só com a potência de dois amplificadores. Foi jogar em casa, na podridão onde o hardcore sempre singra. Não houve demérito na actuação do quarteto, leia-se: as adversidades jogam de mãos dadas com o que de mais feio há, e nem um microfone teimoso impediu o vocalista algarvio de romper o silêncio de fracção de segundo que se fez sentir durante uma das músicas com um rugido acapela.

Se os baixos dos A Thousand Words, em consonância com uma bateria a não argumentar com as banalidades punk (em “Crosses” deixa no ar aquele toque sempre especial da tarola à David Sandstrom), jogam pelas regras do “quanto mais javardo, melhor”, as guitarras revelam uma riqueza que se estende além da agressão sónica e da decibelagem distorcida. Entre o assombroso e o estridente, a guitarra define o corpo com que a música de A Thousand Words agride os tímpanos, ora a resvalar para um negrume neurótico, ora a guinchar os feedbacks de quem não dá tréguas, ora a incitar à violência gratuita através de riffs tão rápidos quanto musculosos. Seria, contudo, redutor dizer que há um timoneiro quando a força do colectivo é a soberba do que se ouve. Foi essa a força que encostou os presentes às paredes do almaemformol e fez cair uns bons pedaços de tecto. Não se trata do Muro de Berlim, mas o pedaço de chapisco que trouxe comigo é fruto de uma dura batalha — e o calor que se fez sentir na cave portuense leva-me a garantir que não se tratava de uma guerra fria.

Com o cancelamento dos Birds (houve alguém da concorrência internautica que me garantiu que se aleijaram numa asa — posso dizer o nome do autor desta piada terrível; garanto que não fui eu), a primeira ficou nas mãos dos Stepback, Miscarriage e da tirada fora do baralho, os instrumentais e ambientais Before and After Science. Na calha, estes últimos levaram o EP de estreia “Vital Signs of a Fallen World”, um repto de que a linguagem post-rock, na encruzilhada dos tempos, vai encontrando meios de se expressar. Ou foi a essa expressão que os portuenses deram som, e foi dessa forma que se fizeram ouvir.

A matinée continuaria de forma mais normal com as actuações dos Miscarriage e dos Stepback, que encontraram no seu vocalista um entertainer nato e um incendiário da aeróbica hardcore. E aqui começou, realmente,  a porradona movida a baixos javardões que resultaria no bailado de slam e 2 step. O almaemformol é mais sólido do que aparenta, está visto.