Os Torcher Runner são como aquele raro homenzinho que, ao invés de ficar com o guito, nos toca no ombro e diz  “olhe a sua carteira”. A honestidade, neste mundo velhaco e sabujo, vai pelo mesmo caminho da água – lá por 2050 será tão fácil encontrar um tipo honesto como uma garrafinha de água em Bombaim. E, assim sendo, um muchas gracias a estes três sujeitos por não nos fazerem a desfeita de aparecer aqui com um álbum mansinho e queriducho.

“Endless Nothing” cumpre – e não se encare esta sentença como depreciativa. Ficamos consolados por darmos de trombas com um LP curto [são 22 minutos] e particularmente indigesto dado o seu alto teor de fibra cavernícola; os Torch Runner estão para a misantropia como o presidente do Usbequistão está para a água a ferver. Dão-se bem. E esse ódio pela condição humana, tão evidente como um quisto sebáceo na ponta do nariz, fá-los mover por algo a que chamaríamos hardcore em primeira instância, mas ao qual juntaríamos outras referências assim que transitado em julgado. Às apalpadelas jurídicas, sentimos em “Endless Nothing” aquela modernidade do breakdown todo sludgy [“Rebirth”, principalmente] e uma atracção miserável pelo grind sinuoso. É um flexível jogo de cintura, tipo speedball – temos a lentidão indigente de “Circle Of Shit” de um lado; do outro, cheia de farelos por aquelas narinas acima, a velocidade quasi-descoordenada ouvida em “A.L.E.I.”.

Claro que pelo meio, qual matéria grudante ou parafuso atarraxante, há feedback em regime buffet – é até nos fartarmos. Há que dizê-lo com frontalidade: os Torcher Runner calçam bem a botinha botilde que a Southern Lord gosta de usar na passarellepunk [onde os Dead In The Dirt são insignes modelos de corpo inteiro]. E contra isso nada temos a obstar.