O drone é um género musical perverso. Valoriza a dimensão temporal da música, assenta nela, e aniquila-a; pega numa melodia que nos aborreceria ao fim de 10 segundos, estende-a de modo a durar 10 minutos, e é subitamente interessante; oferece a cada nota mais tempo do que ela precisa, e quando termina sabe-nos a pouco.

Ouvindo a discografia dos Barn Owl como um todo, parece haver uma constante procura por um sentimento difícil de descrever através da linguagem verbal. Não é paz melancólica nem plenitude estóica, mas é algo que dura, que nos acompanha durante a música e que permanece durante o silêncio. Seja através das melodias mais bluesianas do álbum de estreia, ou das infinitas – e demasiado curtas – músicas que compõem The Conjurer, Evan Caminiti e Jon Porras têm experimentado diversos veículos para canalizarem as suas ideias. A música, essa, é a estrada em si.

V prolonga essa busca com mais uma abordagem, não tão diferente das anteriores. Afinal, estamos na era da música em formatos digitais, e um som é o que é – o que interessa se veio de um sintetizador, de uma guitarra, ou de uma voz fortemente manipulada? O que importa não é o virtuosismo, é a capacidade de representar musicalmente um mundo que nós, de tão apegados aos estímulos visuais, não sabemos imaginar. É uma metáfora, mas não compreendemos o que mimetiza. Talvez por isso seja tão hipnotizante.

Não, a guitarra não desapareceu: a novidade aqui é que afirma a sua presença como se de uma força gravitacional se tratasse, sugando o ouvinte e criando um ponto de convergência para os restantes sons. Em Void Redux, a guitarra é um tambor; em Pacific Isolation, é um pêndulo; e, em The Opulent Decline, a terminar o álbum, é tanto uma última hesitação como uma confirmação de que tudo fez sentido.

Numa tentativa vã de valorizar este álbum, poderia rechear este último parágrafo de figuras de estilo e adjectivos vazios, ou insistir no mérito de criar uma obra maior do que a vida e do que o Homem, mas cinjo-me ao maior elogio que consigo elaborar: até à data, V é a melhor cura para as insónias em 2013.