A primeira actuação do segundo dia do Vagos Open Air esteve nas mãos dos portugueses We Are The Damned, que embora só se tenham formado em 2007, já contam com ocasiões em que abriram para nomes como Napalm Death e Arch Enemy. Este grupo trouxe consigo a sua sonoridade estilo deathcore, permitindo a Mike Ghost, na qualidade de guitarrista convidado pela banda, mostrar uma faceta mais extrema a que talvez os fãs de Men Eater não estejam tão habituados. Em suma, desde cedo se deu a entender que este segundo dia traria consigo uma carga sonora muito mais agressiva que o anterior.

Seguiram-se os Malevolence, projecto secundário de Aires Pereira, baixista de Moonspell. Junto com o baterista de sessão de Corpus Christi, eles estiveram encarregues de dar uma demonstração de death metal com uma riffaria bastante interessante, que tão bem se integrou no cartaz deste dia e serviu para preparar e forrar as mentes dos membros do público que aguardavam fervorosamente (sem escassez de mosh pits e crowd surfing) a actuação dos experientes Morbid Angel.

Os Kalmah, oriundos da Finlândia, granjearam o público com a actuação mais jovial do dia. A tocarem, incessantemente, uma espécie de death metal com um toque sinfónico típico de bandas de power metal do seu país, a Finlândia e, claro, sem deixarem de relembrar Finntroll, proporcionaram momentos bastante divertidos, quase alegres (a gozarem com os portugueses, chamando-lhes “a bunch of mickey mouses”), também marcados pela grande expressividade do vocalista, Pekka Kokko. Entre solos de guitarra que até o teclista tocou, e uma parte da Master of Puppets a surgir no meio de uma música, os Kalmah proporcionaram, em boa verdade, os primeiros momentos de verdadeiro mosh pit, com alguns fãs a fazerem questão de repetir a experiência de cumprimentar a banda a partir do fosso, depois do crowd surf.

Ihsahn, nome artístico do ex-vocalista de Emperor, trouxe consigo o projecto homónimo, em que ele se tem vindo a focalizar numa sonoridade mais progressiva do que a da banda que deu a conhecer o seu nome aos fãs do metal mais extremo. Sem perder a oportunidade de fazer uma entrada digna de uma estrela, ele não pôde deixar de presentear o público com uma música da época em que ainda preenchia a sua cara com corpse paint. A escolha situou-se em Tongue of Fire, do álbum Prometheus dos Emperor. A grande surpresa do concerto, além da jovem banda que o acompanha e que, sem surpresas, se mostrou à altura das composições complexas que tocaram, terá sido, proavelmente, a grande capacidade de Ihsahn para cantar de forma límpida em concerto, sem máculas, depois de tantos anos a investir no growling agudo, típico do black metal.

A primeira impressão que surgiu da actuação de Devin Townsend e seus companheiros de palco foi que tudo estava a parecer bastante melhor do que em álbum: a música na sua generalidade; os vídeos a passar, ora surreais, ora cómicos (não se podendo comparar com os de bandas como Tool e Neurosis); e o look deste artista – a relembrar um Lord de nome impronunciável –, que realçava as suas várias expressões faciais, sinal de ter passado tempo significativo na companhia de Steve Vai. Contudo, o mal que persegue o compositor norte-americano nos seus álbuns, e de que o mais recente Deconstruction, no qual o concerto de Devin Townsend Project muito se centrou, acabou por o perseguir também ao vivo: as capacidades de composição de Devin, inquestionáveis, tendem para cair para o exagero e isso, ao fim de algum tempo, tornam as suas músicas enfadonhas por demasiado densas. Nada que tenha afectado a legião frente ao palco, ainda assim, sempre fiel e fervorosa.

Quem sabe se a reacção às prestações dos concertos anteriores não eram um aquecimento para uma recepção digna para os reis do death metal, ou se eram um reflexo da génese portuguesa, com audiências sempre tão receptivas, nomeadamente nos festivais de música pesada; mas é certo que foi a real recepção que os Morbid Angel tiveram, com uma entrada de quem veio não só para ver, mas para vencer. As cartas estavam jogadas e desde cedo ficou certo que a noite era da banda de David Vincent, que só virava ases na mesa: das 17 músicas que apresentaram na Lagoa do Calvão, onze eram Altars of Madness, de Blessed are the Sick e da sua obra mais conhecida e consensual, Covenant. Curiosamente, ao mais recente Illud Divinum Insanus, os Morbid Angel só dedicaram o tempo de duas músicas, I Am Morbid e Nevermore, numa espécie de mea culpa que reflecte mais a opinião do seus fãs do que de alguma crítica especializada, que teve a coragem de o aclamar.

Mas estaríamos a ser redutores se nos ficássemos pelo alinhamento da banda como ponto alto do concerto. É certo, os fãs mais acérrimos dos Morbid Angel foram ao sétimo céu para dar umas estaladas a deus, mas em muito ajudou a prestação de Vincent e companhia, que não deixam os anos pesar-lhes nas canetas tanto quanto no seu aspecto e continuam a rasgar, não só com o shredding de guitarra.

A título pessoal, diríamos que ainda que reis da noite, sob a ajuda de um céu estrelado que não esteve presente na suave pluviosidade do primeiro dia do festival, os Morbid Angel tiveram de jogar contra a memória do seu discípulo mais brilhante, agora rebelde nas suas prática, qual anjo caído (sim, falamos de Mikael Åkerfeldt e dos seus Opeth), e perderam. Mas perderam bem.