Anda-se a dizer que este é o melhor álbum de The Mars Volta, e eu vejo-me obrigado a subscrever. As composições de Omar deixaram para trás os tempos controversos em que era necessário provar algo alguém, em que havia uma necessidade de mostrar as capacidades dos Mars Volta. Está tudo tão sóbrio, tão coerentemente inconsequente, que não se cai na indiferença. Finalmente, aperceberam-se de que não vale a pena fazer do princípio uma obra que já tem uma qualidade estupenda, como acontece com os Mars Volta. É inegável que todos os anteriores trabalhos da banda – mesmo fora do projecto Mars Volta – são de uma qualidade acima da média. Este álbum consegue sintetizar e reinventar todos os bons pormenores do que foi tão bem feito, sendo tudo isso feito com uma excelência arrepiante.

The Bedlam in Goliath tem a força e o feeling de De-loused in The Comatorium, a história de Frances The Mute e instrumentalização genial de Amputechture. As influências estão lá: há a Dub, o progressivo de King Crimson, Yes e Van der Graaf Generator, o punk de Clash, todas elas exploradas como eu não ouvia desde que o Punk matou o Prog-Rock, nos finais de 70 (estou a falar e parece que já tenho 50 anos, mas isso é mentira. O que eu tenho é um pai estupidamente viciado em música). Todo o álbum tem algo de novo para dar, sem qualquer dúvida, nem que seja a nível melódico – que está algo de completamente diferente daquilo que foi feito pela banda anteriormente.

A verdade é que nada disto seria assim se não fosse uma incrível lufada de ar fresco que a banda estava a pedir desde há algum tempo. The Bedlam in Goliath vem com uma bateria que modifica completamente a sonoridade de Mars Volta, sem que lhes retire a identidade única que têm. As músicas parecem ter pausas para respirar, imensas: Thomas Pridgen, ao contrário de Theodore, que seguia a música “como um comboio”, pausa bastante música com baterias aceleradas mas que vivem muito de quebras que surgem nos contra-tempos ultra-bem colocados nas músicas. Estas baterias dão a sensação de que as músicas se alongam, sem que estas tenham a necessidade de ser estupidamente longas; dão tempo para que se aproveite cada momento da música.

Outra situação que merece destaque é a guitarra de Omar. Se nos últimos dois álbuns a sua presença sobressaía exageradamente, agora há inúmeras situações em que quase não reparamos nela, mas em que a sua presença é de uma importância descomunal. Efectivamente, ela está lá sempre, nem que seja só a fazer o ‘ambiente’ da música, dentro da harmonia. Assim, evitam-se alguns atropelos que surgiram demasiadas vezes, talvez, durante Frances The Mute e Amputechture.

Quando o Amputechture foi lançado, eu esperava que a crítica fosse mordaz – e foi – com um álbum de puro Prog-Rock que teria vingado com uma facilidade incrível nos anos 70; mas, como já disse, o Rock Progressivo está mais morto que vivo (não fossem bandas como Mars Volta, essa seria uma realidade já distante). A onda de incompreensão gerada em torno das suas músicas levou-me a concluir que o próximo álbum seria o consumar musical de um grupo de génios, ou simplesmente o início de uma sucessão de obras-primas. Neste momento, The Mars Volta separaram-se do que foi feito dentro do Progressivo, precisamente como aconteceu em De-loused in The Comatorium (nunca o Punk tinha soado tão bem junto ao Prog-Rock), e fizeram outra obra-prima.