The Cross of My Calling é um regresso muito aguardado. E este não é mais um eufemismo só para definir a linha desta crítica ou uma vontade geral: há mais de um ano que os (International) Noise Conspiracy adiantaram que o álbum estava de gravações terminadas e pronto a ser editado – e já três anos tinham passado desde a edição do anterior Armed Love. Depois de muitos problemas com a Epitaph e algumas morosas negociações, já ninguém tem dúvidas de que os suecos “ainda [existem] como banda,” citando o desabafo do guitarrista Lars durante a entrevista ao Ponto Alternativo há uns meses. The (International) Noise Conspiracy estão de volta para causar estragos.Ultrapassadas estas questões editoriais “frustrantes”, com o álbum já nas lojas, só podemos confirmar que esta espera de quatro anos não foi de todo em vão. The (International) Noise Conspiracy traçaram um itinerário com Armed Love que levantou algumas questões e do qual já não se desviam: as músicas podem ser Rock com atitude à boa moda do Punk, mas a Pop fará parte das suas composições.No entanto, a agressividade revolucionária dos registos anteriores, nomeadamente de New Morning, Changin Weather, estão mais presentes neste álbum do que no de 2004 – a questão que se ergueu com esse trabalho fica então respondida: alguma vez essas duas paixões (pelos refrões orelhudos e Pop e pela agressividade Punk revolucionária, entenda-se) coexistirão?The Cross Of My Calling responde afirmativamente a este desafio, e com muita classe, pois compreende ainda algum espaço para uma nova paixão – pela veia solista, presente em todas as faixas, a lembrar as melhores bandas dos finais dos anos 60 e dos inícios dos anos 70. A sensação de Black Mask, primeiro single do álbum anterior, que punha uma sala inteira a dançar de punho erguido, está presente em quase todo este trabalho.As músicas conseguem ter uma força visceral e revoltante sem nunca se descuidarem nos arranjos Pop, nas melodias que ficam na cabeça e nos refrões contagiantes. Um exemplo perfeito disso é I Am The Dynamite, que foi a primeira música do álbum a ser adiantada no Myspace: uma música crua como o Punk manda, com uns coros que não caem na indiferença e ainda com uma passagem muitíssimo trabalhada, mas arrepiante de tão eficaz e surpreendente. Nem as faixas mais simplistas e ingénuas, como Washington Bullets e Storm The Gates of Bervely Hills, que lembram muito o projecto a solo do vocalista,The Lost Patrol Band, perdem algo desta dualidade de paixões. Quase se pode dizer que o mítico Rick Rubin acertou em cheio na produção deste álbum. Não falhou, isso é certo, na ajuda à composição e na insistência nos momentos de exploração da música, onde está o espaço para os solos tanto de guitarra como de teclas (instrumento que desde Survival Sickness não se fazia ouvir tanto e tão bem), que estão perfeitos.Há algo, apesar de tudo, em que este álbum perde. Não sendo uma fatalidade, há um excesso de arranjos. É senso comum que a Pop vive dos pormenores, mas este álbum tem um ou dois que estão a mais – e esta é uma falha da produção. Por isso Rick Rubin esteve quase a, mas não acertou em cheio. Num próximo registo, tendo em conta o percurso que o produtor e a banda fizeram juntos, tudo indica que se tratará de uma obra-prima.O que não falha nem muda, claro, é o conteúdo corrosivo das letras das músicas e a atitude corrosiva de Dennis Lyxzén e companhia. As mensagens não têm a densidade de outrora, quando anunciavam a plenos pulmões que a virgindade dos suecos foi roubada pelo capitalismo e que as pessoas vivem numa contínua reprodução de morte, mas são directas e continuam a tocar na ferida. Um processo que faz todo o sentido, se tivermos em conta que The (International) Noise Conspiracy são musicalmente mais acessíveis do que eram há uns anos.Finalmente, o novo álbum dos suecos chegou. É Rock, é Punk, é Pop e ainda tem um pouco de Soul e de Funk. É uma síntese dos seus trabalhos anteriores adornada com muito bom gosto. Um aguardado regresso que correspondeu bem à-vontade às expectativas, por si bastante elevadas. The (International) Noise Conspiracy estão de volta para causar estragos.