“Don’t forget the real business of the War is buying and selling”
Thomas Pynchon

A morte é o grande definidor, rainha-metafísica, a dúvida quântica, o imperativo ancestral, a incerteza dos que julgam não ter medo algum do escuro até ao momento em que lhes falta o ar. Mas a morte também é o negócio por excelência, e já que agora tanto se fala em Paris, passem um dia destes pelo Père-Lachaise só para verem como a aristocracia queria ser chic a valer até na hora da decomposição.

Foi a morte que passou o alvará de existência a instituições oficiais e oficiosas, entidades (para)governamentais e sociedades secretas que a propagam, cultuam e instrumentalizam. Um ritualismo de background, delimitado pelo tempo, que tanto oferece sentimento de pertença como em troca garante a inquietação permanente; a morte é o grande controlo, o totalitarismo absoluto num projéctil, a besta. Quando à morte se lhe junta a tragicidade do inesperado, a tragicidade de quem partiu cedo demais ou até o tragicismo do conflito armado [é curiosa a banalização da morte no contexto de guerra, onde vítimas passam a casualties, casualidades de uma casualidade fatalista ainda maior], o negócio aumenta de forma exponencial. Porque o trágico traz o macabro e o macabro é como Demónio de Maxwell que elimina a segunda lei da termodinâmica, tornando a morte mum contínuo mercado de valores, gordo de bens transacionáveis, onde tudo tem o preço de compra e recompra.

Um soldado, se morto, é mercadoria para o carrasco – em guerra. Em paz, um sujeito comum, se morto tragicamente, é mercadoria para todos nós. Não me quero sequer preocupar com as Debordices e as considerações da Sociedade do Espectáculo, prefiro antes deixar aqui o meu nojo, a minha valente bola de cuspe em cima de publicações como a BLITZ, esse rolo de papel higiénico ornamental, que decora latrinas e já foi musical.

Além de invariavelmente fazerem capa com gajos mortos – é provável que o Kurt Cobain já tenha morrido uma segunda vez tal a insistência em lhe vampirizar o passado [hint: era só um tipo que gostava de tocar guitarra, ponto] e que o Jim Morrison tenha vontade de descer à terra só para lhes explicar que a “Five To One” significa apenas bater à punheta -, agora decidiram fazer pelas minhas contas 36/37 artigos sobre o que se passou no Bataclan. O QUE É QUE HÁ TANTO PARA DIZER SOBRE O SUCEDIDO QUE LEVE ALGUM ÓRGÃO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, ESPECIALIZADO EM MÚSICA, A ESCREVER QUARENTA PEÇAS SOBRE UM MASSACRE?

Ah, sim, os Coldplay fizeram uma homenagem às vítimas, o Prince adiou não sei quê, a Madonna chora a tragédia, os U2 foram meter flores, os Foo Fighters estão muito tristes… Foda-se, quem quer saber? Tudo isto metido entre um outro artigo que se intitula “Esta rapariga é igualzinha a Miley Cyrus“. E vergonha na cara? E a insistência em colocar, recolocar, voltar a mostrar o vídeo onde se ouvem os disparos iniciais durante o concerto? Para quê? Qual é a justificação? Eu sei qual é, vocês sabem qual é. A morte é um negócio. Tudo se vende, tudo se compra quando a tragédia sobe e o macabro vem logo atrás enrolado numa poça de sangue.

Os Eagles Of Death Metal continuarão a ser os Eagles Of Death Metal, mas entre as poucas águias surgem sempre imensos abutres.