Estes Sólstafir não serem mais (re)conhecidos é algo que fica entre o injusto e o escandaloso. Quando abriram para os Swallow the Sun, o ano passado, no MusicBox, a maioria das pessoas não estava familiarizada com a banda, e a surpresa era quase palpável.

Mas afinal, quem são estes quatro islandeses, e o que tocam? Sobem ao palco e um rapazola mesmo ao meu lado solta um “que’sta merda…cowboyada?” Não foi completamente descabido: eles tocam de botas, com aqueles coletes à John Wayne, chapéus… Mais: o guitarrista Sæþór Maríus Sæþórsson encaixou-se, quase deitado, entre os amplificadores de uma forma que fazia lembrar o Trinità de Terrence Hill, a descansar na sua cama/rede, enquanto é puxado pelo cavalo. Não só no aspecto, a música deles também tem qualquer coisa de cinematográfico, qualquer coisa que nós faz lembrar paisagens imensas e anti-heróis maiores que a vida, rápidos no gatilho e nos shots de whiskey.

Desde 2005 que a coisa é assim, desde o épico Masterpiece of Bitterness – muito poucas vezes o titulo de um disco é tão apropriado ao seu conteúdo. O que fizeram antes não é irrelevante, mas interessa pouco agora. Até porque, como já disse no título, em Svartir Sandar, os cowboys do gelo enterram as esporas nos respectivos cavalos e aceleram, em direcção a um rock sujo,um rock sombrio e negro, mas rock. Adeus metal, até depois. Adeus, também, à editora dos últimos anos (trocaram a finlandesa Spikefarm pela francesa Season of Mist) e às letras cantadas em inglês.

O regresso à língua islandesa é um grande manguito aos que esperavam mais refrões sing-alongs, como a Love Is The Devil (And I Am In Love). Não os vão encontrar aqui, lamento. Por outro lado, vão encontrar um som tanto pesado como psicadélico e atmosférico. E progressivo, como sempre. É um disco duplo, com seis faixas e sensivelmente quarenta minutos cada. As faixas estão mais curtas do que nos habituaram, algumas até chegam a parecer canções – em Fjara, quase se vislumbra um single. Acabaram-se os épicos de 15 e 20 minutos, mas ganhou-se em consistência e coerência.

Apesar dos vestígios de heavy metal negro terem ficado para trás, ainda há muitos momentos que deixarão os deuses do rock com um sorriso de orelha a orelha, como o final de Melrakkablús, a faixa que abre o segundo disco. A faixa título é uma das mais intrigantes. Em momentos, remete-nos para o debut da banda, o impronunciável Í Blóði og Anda…temos um beat que por uns segundos se assemelha a uma blastbeat, temos uns berros aqui e ali. E um coro, angelical, daqueles que se ouve a anteceder uma desgraça de proporções épicas. O álbum termina em grande comDjákninn, uma das criações mais psicadélicas, que cresce e melhora progressivamente até uma segunda metade que sóSólstafir podiam compor.

Não tão inspirado quanto Köld, não tão arriscado quantoMasterpiece of Bitterness, mas um grande grande grande disco, que vai acabar em muitos top5 de 2011, de certeza. Svartir Sandar, diz-me o sempre dúbio googletranslator, é o islandês para “black sands”. E isso é um bom título, acreditem…