Chama-se de “turbina” ao que movimenta ou activa algo. Chama-se de “anthem” (hino) às peças que têm características épicas, majestosas e honrosas. Turbina Anthem, sintetizando, poderia ser a súmula destas duas palavras: expele o som e dinamiza-o conforme as características individuais dos seus instrumentistas (Sei Miguel – trompete; Pedro Gomes – guitarras), conferindo-lhe uma imparcialidade que, embora não seja do domínio da epopeia, é, certamente, do domínio do grandiloquente.

Contudo, podia-se dividir Turbina Anthem em duas partes. De um lado as cinco composições que formam The Pale Star, que se condensam em cerca de quinze minutos de uma sonoridade que se debruça sobre um registo bucólico, capaz de criar um imaginário onde predominam as imagens rústicas do campo. Os cerca de trinta e cinco minutos que preenchem o resto do álbum são dotados de uma estética discrepante, onde imperam sons tumultuosos, inquietantes e ásperos, de índole abstracta.

Quando se ouve a primeira faixa do disco, The Pale Star I. Manhã da Noite, os dois improvisadores sugerem um trilho de dinâmica suave, onde os atalhos, diferentes para cada um dos dois, são donos de consonância e serenidade. Em contrapartida, a faixa que se segue, Spoon, põe em prática uma linguagem paralela, em que a guitarra tem um carácter próximo do agressivo e ruidoso, da qual se soltam texturas ininteligíveis e obscuras. São principalmente as guitarras, tanto a acústica como a eléctrica, que dão origem ao ambiente diferenciado de cada uma das catorze composições. Por sua vez, Sei Miguel ao longo das faixas deixa-se levar por parafraseados curtos, em que as principais alterações se notam na intensidade que destina a cada música. Contudo, existem momentos em que um som de trompete se prolonga, tornando-se cada vez mais impetuoso, embora traçando uma linha, ou, contrariamente, perdendo o alento.

Turbina Anthem é um trabalho singular em toda a sua plenitude. Não é um trabalho de uma fórmula, é um trabalho de formas que se vão desenvolvendo de maneira individual por cada música. As particularidades de cada um dos músicos são realçadas por aí – cada um interpreta da forma que lhe é própria, porém, originando alguns pontos onde os caminhos distintos acabam por ganhar um paralelismo, e se cruzar.