Não há dúvida que a melhor resposta em muito tempo tem o nome de Putan Club. A carreira de François Cambuzat fala por si. The Kim Squad, Il Gran Teatro Amaro e, claro, L’ Enfance Rouge são cartões de visita de uma carreira com 30 anos sempre com o punho cerrado na cara do próximo. Do outro lado Gianna Greco, que segundo informação oficial não fica atrás em matéria de produtividade (16 projectos e 11 álbuns em 26 anos) destacando-se o projecto a solo Kama e o trio Shotgun Babies. É este duo, cada um na sua ponta da sala, que se propõe a saciar a sede química. Guitarra e baixo apontados como armas a cabeças com ânsia de pó.

Percebe-se cedo que a declaração de guerra não é só uma frase feliz: «pUTAN cLUB não pertence a nenhuma igreja (rock, techno, jazz, avant, ou what the fuckever)». A ênfase na distanciação a qualquer Igreja será com certeza o mais importante. Se musicalmente se vai passando da electrónica violenta (industrial e dubstep à cabeça) ao avantgarde com uma velocidade estonteante, há um aspecto que se mantém fixo: subversão.

De facto, a música de Putan Club e sobretudo ao vivo é marcada por uma constante tentativa de desequilibrar os sentidos: o beatnão se mantém constante para bater o pé. É um ponto de referência vagabundo que resiste à captura do previsível. É ajudado na guerrilha por um som profundamente dissonante ora pelas linhas ríspidas e agressivas do baixo ora por um trabalho de guitarra cuja aparente esquizofrenia nunca pode apagar a profunda mestria e originalidade de Cambuzat.

As palavras são cuspidas como se um megafone estivesse quase sempre presente, acentuando ainda mais o carácter reivindicativo do duo. É um grito que não se cansa nem com quase duas horas de pancada quase constante. Só por uma vez Gianna Greco se apodera do microfone com idênticos predicados aos do seu camarada, embora quem calhasse na sua esfera de influência tenha tido a sorte de ouvir vocalizações com uma dose de sexualidade (sim, porque sensualidade é a forma pequeno-burguesa de abordar a questão…) que não surpreenderam quem foi alvo dos afectos visuais (e não só) da italiana.

Os momentos de brilhantismo de “Sens La Mort” ou a épica “Filles de Mai” foram provavelmente os momentos altos de um projecto que vive para tocar ao vivo (apesar dos CD-R disponíveis, é prática da banda não editar a música que fazem., estando adiscografia disponível online em sítios mais ou menos obscuros) e que continuará em território português nos próximos dias. É esperar que mantenham o hábito de cá voltarem (este foi o terceiro ano consecutivo) porque há muitas quintas a precisar de serem brutalizadas.