Emmy Curl

A mostra Outonal da marca Primavera iniciou-se com dream-pop vindo de Vila Real. Foi num cenário intimista preenchido por bonitos candelabros que Catarina Miranda, conhecida no mundo da música como Emmy Curl, apresentou as suas suaves canções no auditório pequeno do CCVF. Enquanto dedilhava uma guitarra acústica, a sua voz quente fazia-se acompanhar de um contrabaixo. Da harmonia sussurrada das suas primeiras canções, passamos a ritmos melancólicos gerados por um sintetizador, que ajudaram a mostrar o seu mais recente EP Origins. Houve ainda tempo para uma cover da cantora islandesa Emiliana Torrini. Um excelente aperitivo para a noite de sexta-feira.

Lemonade

Foi de Brooklyn que chegaram os Lemonade. Apesar do ambiente festivo que o seu Synth-Pop deveria proporcionar, este não chegou a aquecer. Por várias vezes a banda convidou o público para a dança, mas não houve grande colaboração e a grande maioria das pessoas manteve-se impávida nos seus lugares. Intercalaram temas mais festivos com influências de New Age, com outras tantas baladas com toques de RnB. No meio desta mistura, constatamos que as ideias não são muitas e o mero tom revivalista não chegou para entusiasmar.

Sensible Soccers

Tempo então para os futeboleiros Sensible Soccers, que utilizaram um pouco de chillwave e outro tanto de psicadelia para fintar a monotonia. Um bom espectáculo no café-concerto, cheio de bons gestos técnicos e jogadas plenas de técnica. Jingamos todos em sintonia e confirmamos que se tratam de valores seguros da música nacional.

You Can’t Win, Charlie Brown interpretam The Velvet Underground & Nico

É sempre uma tarefa arriscada e ingrata reinventar um dos mais icónicos discos da história da música, mas foi isso que os You Can’t Win, Charlie Brown se propuseram a fazer. O sexteto pegou no famoso “álbum da banana” dos Velvet Underground & Nico e, pela segunda (e provavelmente última) vez tocaram-no na íntegra em palco. Não se pode esperar igualar a banda de Lou ReedJohn Cale, mas seria injusto não dizer que o sexteto lisboeta se portou bem e que, à sua maneira, fez justiça ao legado dos veteranos que pretendiam homenagear.

Não foi surpresa que a sonoridade solarenga dos YCWCB tenha encaixado bem em temas doces como Sunday Morning ou All Tomorrow’s Parties, mas surpreendentemente, também conseguiu moldar-se às angústias de Venus in Furs ou Heroin. É facto que, em geral, os temas soam menos intensos em termos emocionais e que as melodias estão mais embelezadas quando um dos maiores charmes do disco original é a sua crueza, mas as diferenças não são tantas que a adaptação pareça desrespeitosa nem tão poucas que pareçam uma mera colagem.

Sharon Van Etten

Chegou então o momento de apreciar a obra de Sharon Van Etten ao vivo. Tramp será, sem surpresas, um dos álbuns mais destacados pelo jornalismo musical no ano de 2012 e isso fazia deste concerto um dos mais esperados do certame.

Muito comunicativa, com uma maturidade assinalável que combina com um sentido de humor astuto, Van Etten foi brincando com os incentivos vindos da plateia. Só isso já fazia enternecer o céptico dos festivaleiros. Mas havia mais, muito mais. Falamos das suas canções. Debutou com All I Can e logo aí se percebeu a incrível capacidade que a sua música tem de descrever emoções e também de emocionar. Seguiram-se então muitas canções deTramp, algumas de Epic e ainda um inédito. Destaque para a homenagem a Cohen em Leonard, música que lhe é dedicada. A competência da sua banda, a simplicidade da sua atitude e sobretudo a sinceridade com que se apresenta conquistam a plateia. A força da sua voz surpreende quem se ilude pela sua imagem de aparente fragilidade. O seu folk-rock segreda ao nosso ouvido histórias de amor, de desilusão, de raiva e em todos os casos ficamos embevecidos.

O concerto valeu então por cada momento, até pela meticulosa maneira como encara cada pormenor e pela suavidade com que lida com cada acorde. Por isso, para quem viu o concerto todo ou para quem viu apenas parte, estamos certos que todos guardarão as melhores recordações do mesmo, esperando por uma próxima oportunidade de a escutar.

Destroyer

Em 2011,os Destroyer de Dan Bejar lançaram um dos melhores discos do ano mas, até esta 6ª Feira, este ainda não havia sido apresentado no norte do nosso país. Esse facto, por si só, já justificaria considerar a banda como um dos grandes nomes da noite (e do cartaz) e, certamente, que foi também esse o motivo para a debandada que se assistiu aproximadamente a meio do concerto de Sharon Van Etten (para muita pena nossa). Ainda assim muita gente terá ficado para trás pois, quando Dan Bejar e companhia subiram ao palco do C.A.E. S. Mamede, a plateia estava ainda bastante despida.

O som lustroso que se ouve em Kaputt (o tal disco de 2011) é talvez o que mais distingue os Destroyer das outras bandas, mas pairava no ar uma preocupação: conseguirá essa ambiência tão rica e detalhada passar para o palco? Bem, quando a banda começou a tocar (Downtown foi a primeira malha), essa dúvida depressa se esfumou pois, com esta formação de 8 elementos, estava fácil de ver que a transição estúdio-palco  iria ser feita da melhor maneira possível. Não é possível falhar quando o saxofone e o trompete mandam tanto charme, quando as linhas de baixo são tão contagiantes ou quando as guitarras soam tão limpas (não há palavras para o riff da European Oils). Depois, claro, há aquele caso à parte que é a voz incomparável de Dan Bejar.

Kaputt, Suicide Demo for Kara Walker e Rubies (malhão do disco de 2006 – Destroyer’s Rubies) foram talvez os momentos maiores num concerto que não tendo sido perfeito (alguns problemas de som prejudicaram os primeiros temas), encheu as medidas aos fãs da banda e deu o mote ideal para, durante aqueles momentos, dançar descontraidamente com as mãos nos bolsos.

Ariel Pink’s Haunted Graffiti

Fazer um comentário ao concerto Ariel Pink’s Haunted Graffiticarecerá sempre de rigor. Se, em boa verdade, Mature Themes(2012) é um álbum demasiado redondo, longe da ousadia de registos anteriores, esse facto pouco importa para a falar da performance do artista. A prestação de Pink vale essencialmente pela excêntrica personagem que transporta para o palco e pelas provocadoras letras que debita, canção após canção. Com uma mala ao ombro, o artista evocou uma espécie de circo, coordenado pela sua pose e pelas imagens que vão sendo projectadas. Imbuído de ambiências retro, o seu lo-fi aproveitou Love Me Dodos Beatles para depois se lançar à conquista do S. Mamede. Tivemos hits dançáveis como Round and Round e Only In My Dreams que convidaram a maioria ao passo de dança. Tivemos também a ingenuidade de Mature Themes ou a provocação óbvia de Menopause Man. Tudo em estruturas de canções particularmente simplistas que contrastam com as bizarrias que vai criando e assim, divertindo todos os conseguem entrar no seu complexo universo pessoal.

Machinedrum + Dj’s Rashad & Dj Spinn

A noite já ia longa mas ainda desfrutamos da prestação deMachineDrum  e sobretudo da dupla  Dj Rashad e Dj Spinn, que apresentou ao vivo TEKLIFE Vol. 1: Welcome to the Chi, considerado por muitos como um dos melhores álbuns de música electrónica deste anos e que aqueceu o C.A.E. S. Mamede, já transformado numa grande pista de dança.