O início deste álbum é sintomático: não existe qualquer introdução, nem tão pouco um build up – algo tão comummente presente noutros registos. Também não se encontram vestígios de quotes retiradas de um qualquer filme obscuro. Nada, não existe absolutamente nada que antecipe o que a seguir se sucede. E o que se sucede é Conform, a primeira faixa, que de imediato se faz explodir violentamente nas nossas mãos e espalha os estilhaços sobre o nosso corpo. Sem aviso prévio, aí está o segundo álbum de longa duração dos Nails, pronto a espatifar quem o ouça.

Formados em 2007 por Todd Jones, ex-membro dos Terror, a banda californiana relançou oficialmente Unsilent Death o ano passado (depois de já ter sido vendido em 2009 pela Six Feet Records), sob signo da bem reputada Southern Lord. Produzido por Kurt Ballou (o guitarrista dos Converge é cada vez mais uma referência no nicho hardcore/crust/grindcore), este disco apresentou, de imediato, os Nails como uma potência a ter em conta para os anos que se avizinham.
E porquê? Simples: Unsilent Death tem catorze minutos do mais devastador que há memória nos tempos recentes. Sim, este álbum não chega a ter um quarto de hora de duração. Mas, depois de ouvi-lo, fica a pergunta… Era preciso mais?

Sonoramente semelhantes àquilo que os Trap Them ou os Black Breath fazem actualmente, os Nails misturam aquela veia grindcore/powerviolence/d-beat com o groove à Entombed, presente no Wolverine Blues (1993); sem esquecer, claro está, as raízes hardcore de Todd Jones. Um caldinho que tem momentos de puro caos, que logo desembarcam em fortes breakdowns (vide Scum Wil Rise e Suffering Soul), não deixando que o álbum tenha um único momento de sossego. Os pedaços mais tranquilos, se assim podemos denomina-los, acontecem apenas nos parcos segundos em que o baixo (devidamente distorcido e tocado por John Gianelli) aproveita o silêncio da bateria e da guitarra. Ou então quando, por exemplo, entra um solo totalmente desconexo, a meio da faixa self-title. Pequenos oásis num corrupio arenoso, pardacento e adoravelmente abjecto.

De resto, Unsilent Death apresenta-se na sua maioria como uma curta-metragem de destruição maciça, onde palavras de revolta como “I’m not your fucking servant” ou “Fuck the sheep who tell me how to live” são cuspidas, aos gritos, em direcção ao microfone. Pura raiva que tão bem assenta no ritmo abrasivo dos Nails, onde proliferam os riffs velozes e impetuosos à Jesse Pintado. Vis powerchords impregnados numa bateria incessante, bem executada por Taylor Young, o também membro dos Crematorium.

São apenas três músicos, mas soam como um exército em fúria. E, aí, há que oferecer (novamente) uma salva de palmas a Kurt Ballou, que soube produzir da melhor forma este disco. Os tons da guitarra e do baixo estão bastante sujos e, em simultâneo, perceptíveis e dinâmicos. Não se perdem numa fusão noise, como por vezes acontece com discos do género, o que ajuda na animalesca experiência que é ouvir Unsilent Death.

Não é um álbum original – tendo em conta o estilo onde se insere, como poderia sê-lo? Alguém imagina um crust/grindcore sinfónico ou semelhante? – mas é do melhor que surgiu nos últimos anos neste espectro. Vale (bem) a pena.