Edmundo Silva, o segundo da família, e por isso é Mundo Segundo, no rap, na música e na vida, a família chamava-o Mundo em criança, o “Segundo” é apenas um tributo à mesma. Rapper, poeta, produtor desde 1993. Membro fundador e ainda integrante, desde 1996, do colectivo Dealema, composto por mais três companheiros de rimas (Maze, Expeão e Fuse) e DJ Guze, é um dos projectos com mais longevidade no panorama musical nacional, banda de culto, nuclear no seio do movimento hip-hop português, com ramificações que se estendem até aos PALOPS.

A solo, acaba de lançar o sexto registo discográfico, ainda nos derradeiros dias do ano de 2016, o EP “Sempre Grato”, que conta com a distribuição da revista BLITZ durante o mês de Janeiro, com apresentações no Porto e em Lisboa, dia 21 e 27 do mesmo mês respectivamente. Ao mesmo tempo que vai cozinhando e mostrando alguns pedaços do aguardado disco conjunto com Sam The Kid.

Em 2006, estreou-se a solo com o álbum “S.O.M (Sólida Oportunidade de Mudança)”, depois de juntamente com Expeão (Terrorismo Sónico) ter lançado em 2001 o disco “1º Assalto” (que teve direito ao “2ºAssalto”, dez anos depois, em 2011); em 2008 editou as mix-tapes “Mundo Segundo Vol.I” e “Pioneiros”, esta em simbiose com o peso pesado dos pratos DJ Nel’Assassin; em 2011, novamente duas mix-tapes: “Mundo Segundo Vol.II” e “Mundo Segundo e Each”; depois de dois anos dedicados a Dealema, quando sai quinto disco da banda “Alvorada Da Alma”, volta em 2014 aos álbuns com o conceptual “Segundo O Ancião”, um disco biográfico numa altura em que completava vinte anos na música.

Poder-se-á tornar exaustivo enumerar a extensa biografia discográfica, de participações e projectos em que Mundo Segundo está envolvido, mas uma coisa é certa: ele não se cansa, pois a lista poderia bem continuar por mais um ou dois parágrafos.

Persistência é a chave

Entre todos os ingredientes, Edmundo isola como o primordial para que a sua carreira se consolida-se na música o facto “de não desistir à primeira, nem à segunda, nem à terceira”. O rap teve de ultrapassar inúmeras barreiras, desde os anos noventa até aos dias de hoje, de credibilização e conquista de respeito e do seu próprio lugar no terreiro escasso da música nacional, o rapper trilhou também esse caminho: desde ser recebido em palcos como um alienígena até encher casas históricas. Mas o segredo nem é esse, o segredo é não se ficar por ai: por ser integrante de um dos projectos melhor sucedidos do estilo e um pioneiro do mesmo, não: “o segredo é continuar com fome, querer manter-me relevante, saber ler-me bem e ver onde estive mal, e poder melhorar, e também onde estive bem, para que me possa superar: o segredo é manter a fome, como se costuma dizer”.

Sobre o novo trabalho, Mundo confessa que no “meio do trabalho continuo com o Sam, dos concertos e do estúdio” está sempre a congeminar novos projectos: “quando termino algo, tenho já por feitio ter mais uma ou duas coisas a serem desenhadas na minha cabeça – uma delas é o “Sempre Grato”, que coincidiu com um convite da Blitz – e eu achei que era o momento ideal”. Um “conceito que já preparava há alguns meses, através de mensagens e de um hashtag na minha página de facebook. Gosto de, subliminarmente, ir deixando às pessoas pistas, ou uma palavra-chave daquilo que ando a preparar”. Músicas que estavam na denominada gaveta artística? “Já tinha algumas músicas preparas, entretanto fiz mais quatro. Tive oportunidade de ter cá um amigo meu do Brasil, o DJ Caique, que é produtor de artistas como o Projota, MvBill, Emicida, nomes de peso lá, e consegui incluí-lo no disco neste caso como MC”. Uma colaboração transatlântica que remonta ao ano de 2008, quando Mundo participou no disco “Coligações expressivas II”, de DJ Caique. Depois, “fiz mais uma ou duas músicas, para colmatar o conceito, para equilibra-lo, mas era algo que já vinha a cozinhar de traz.”. De facto, a melhor retribuição que pode dar a quem o apoia é precisamente esse: ser “hiperactivo e não estar muito tem sem pôr nada na rua”.

Para este ano de 2017, tem o EP “Sempre Grato” para levar para estrada “com muitas datas já fechadas até Setembro”, lançar o álbum conjunto com Sam The Kid, para, em 2018, editar um álbum a solo. “À parte do projecto com o Sam, estou a preparar um álbum a solo, que estou a fazer com muita calma, que só irei lançar depois de lançado o projecto de Mundo Segundo & Sam The Kid. Também estamos a preparar, para 2017, uma espécie de documentário, em episódios, sobre Dealema, sobre a génese do grupo, da nossa história, as fases que atravessamos. Sem contar com a estrada, seja com Dealema, a solo ou com Sam The Kid.” Paralelamente, Edmundo continua intimamente ligado ao desenvolvimento da cultura hip-hop, ao desenvolver semanalmente o programa de rádio “Skills” exibido às quartas-feiras à noite na Rádio Nova Era, onde são dedicadas duas horas de transmissão maioritariamente ao rap feito por cá, divulgados projectos oriundos de todo o país.

Mundo Segundo é um caso particular de proficuidade e resistência, é possível ouvi-lo falar sobre isso mesmo numa das conferências Tedx nas Caldas da Rainha.

Gratidão é trabalho

Andar na estrada de norte a sul do país, ilhas e PALOPS nos “últimos seis anos tem sido regular” para Mundo Segundo, completando uma média de “trinta a cinquenta gigs” anuais. Ainda assim este ano de 2016 foi “um ano atípico”: “Estava toda a gente a produzir, também não sei o que se passou da parte das promotoras. Houve bastante procura, especialmente nos últimos meses do ano, em que costuma haver, mas este ano houve com mais força.”, onde se dividiu em concertos em nome próprio, com Sam The Kid e com Dealema. Terá sido do fenómeno Kendrick Lamar, como mote para um dia dedicado ao rap num festival de música mainstream, ter-se revelado um sucesso de bilheteira? Talvez terá aberto esse facto os olhos a alguns organizadores de eventos mais distraídos. Longe vão os tempos das Nova Gaia Hip-Hop Sessions, em que para poder tocar ao vivo e simultaneamente proporcionar que outros o fizessem, teve de vestir a fato de promotor, levando rappers de todo o país à cidade invicta, onde muitos foram assim descobertos.

Neste momento, Mundo sente-se grato por tudo o que lhe aconteceu, “e que eu não fiz força para que acontecesse”: “ por poder viver da minha paixão, que é a música, o rap, ser uma parte integrante deste movimento hip-hop, olhar para trás e realizar que foram muitas as batalhas que tivemos de travar, mas que com a nossa força e união conseguimos construir algo que inspirou muitos outros, e hoje já somos uma família bastante grande”. Grato a alguém ou algo em particular? “Estou grato de variadíssimas formas. Grato por a minha família sempre me ter apoiado nesta minha opção de dedicar a vida ao rap; aos meus amigos que me deram e dão confiança para continuar; às pessoas que me ouvem, que compram os meus discos, que vão aos concertos, a todas as pessoas que, de alguma forma, divulgam o meu trabalho; faço questão de dizer a todas as pessoas que trabalham comigo diariamente, que lhes estou grato por isso. É um privilégio poder fazer aquilo de que gosto. Nem todas as pessoas têm esse privilégio na vida, por isso só tenho de agradecer”.