Não tinha passado muito tempo desde que tinha deitado a mão a este novo álbum dos Melvins quando calhou ler uma review na Prefix sobre o dito cujo. Dizia (diz) algo do género: é bom ter de volta o grunge (metem também os Mudhoney ao barulho) e o regresso das sonoridades que marcaram um tempo. É caso para dizer: “What the fuck!?” Tratar os Melvins como se fossem uns revivalistas e este álbum como algo do género é um desprestígio grande e até uma afronta. Pondo as coisas nos devidos sítios, os Melvins nunca pararam de lançar discos, de tocar e simplesmente sempre estiveram por aí a estilhaçar audiências com as suas sonoridades arrepiantes e até nada grunge, bem arrepiantes e “non-pop friendly”. Revivalismo!? Nem por sombras…

Bem, mas adiante-se ao que interessa. Nude With Boots é o segundo registo da banda numa nova fase da sua carreira, depois de terem sido sempre um trio. Com a saida de Kevin Rutmanis (1998-2007), a banda passou a ser um quarteto, assumindo Buzz Osborne e Dale Crover o papel de serem os Melvins de facto e chamando os Big Business (Jared Warren and Coady Willis) para assisti-los nas tarefas auxiliares. O primeiro capítulo desta união foiA Senile Animal de 2006.

 São dois anos de intervalo, portanto, que separam Nude With Boots do seu parente de 2006. Que diferenças podemos encontrar então? Apesar da entrada fabulosa do registo com a muy zepelliniana e melódica The Kicking Machine, o novo disco apresenta níveis de melodia menos intensos que o antecessor A Senile Aninal, e o mesmo poderemos dizer quanto à sua “popicidade” – é substancialmente menos pop -, e consequente mais experimental, mas sem cair e estar perto sequer dos extremismos sonoros tão em voga “a la wave drone e noise”. Modas que até tem grande cunho dos Melvins.

 Se se quiser fazer uma comparação com anteriores trabalhos da banda de Aberdeen, poderia trazer-se ao caso OZMA de 1989, um álbum onde predominam as estruturas imprevisíveis, mas onde o pé está sempre no acelerador. Aqui em Nude With Boots pode-se encontrar muitos exemplos disso. O exemplo mais significativo será The Stupid Creep, música rock and roll que acaba sem que estejamos a contar com isso. Mas o tom está nas trilhas mais experimentais. Aqui contamos com muita diversidade. Se temos as deambulações psicadélicas em Flush, temos depois o ecletismo de Suicidade In Progress onde se mescla o instrumental também psicadélico num formato mais tradicional. Se tem que existir um “must”, um destaque, esse tem de ir direitinho para Dies Iraea, onde por momentos parece que Ennio Morricone é um membro dos Melvins e estariam a pensar em algum filme de Sergio Leone.

De resto, a competência vocal de Buzz Osborne continua intacta, a voz sludge-cavernosa única está potente como nunca e idem para o seu companheiro, Dale Crover, o baterista, as batidas continuam pujantes e com aquele ritmo que nunca se consegue apanhar totalmente mesmo que ouçamos a coisa centenas de vezes. Quanto aos Big Business, o contributo maior será para o formato “live”, porque no formato disco, não se notam mudanças significativas de sonoridade, quem a marca é a dupla já citada.

Nude With Boots pode ser uma metáfora para uma postura, uma atitude de quem está despido de seguidismo de tendências, mas que ao mesmo está com os pés bem assentes na terra. São os Melvins em boa forma, com composições valentes e destemidas.