Quando se escreve sobre uma banda como Mamiffer, a questão “ o que raio vou eu dizer sobre isto?” é impossível de contornar. Não é música clássica, apesar de ser liderado por um piano, um piano que também não é rock que é melodioso, cheio de harpejos e com atenção melódica típica das melhores bandas de post-rock (vamos elevar isto até aos GY!BE). Não é drone, apesar do arrasto inerente ao corpo animal de Mare Decendrii; não será doom, mesmo com a bateria super lenta e forte. A conclusão mais fácil para a descrição é simples: são os Mamiffer, a banda liderada por Faith Coloccia (Pyramids), brilhantemente auxiliada por um dos seres mais criativos a assolar o panorama musical dos últimos 15 anos, Aaron B. Turner (ISIS, Old Man Gloom, House of Low Culture, Jodis, Lotus Eaters).

Mare Decendrii não comporta nada por conveniência. O facto deTurner ter acabado com a sua banda principal e se juntar à sua esposa em Mamiffer não pode ser menos do que um namoro em forma de música, quando notamos a guitarra do primeiro copular harmonicamente com o piano de Coloccia na perfeição em As Freedom Rings. E é um momento sublime que se vai repetindo aqui e ali ao longo deste novo longa-duração, sempre com a intenção da intensidade – no que toca a sensações, o amor é um duro, caramba!

Porventura, será isso que faz de Mare Decendrii um disco duro, também, de pele gasta pela erosão, mas impossível de não olhar fixamente. O piano moroso demonstra-se amoroso em todas as suas combinações, especialmente com a guitarra, e a força dos Mamiffer mostra-se sem corpo – atravessa fronteiras e pode atingir qualquer um com as suas sensações desesperadas. É um disco que se ouve ininterruptamente, à procura do pormenor novo que vai motivar a nova audição. É viciante como uma paixão, para as quais estamos sempre à procura de motivos para não as largar.

É um desespero não saber o que dizer da beleza das cordas deMamiffer, da bateria, dos coros, da guitarra e, claro, do seu piano. Precisar onde é que os norte-americanos vivem é verdadeiramente complicado, porque eles não habitam os espaços físicos.