Mastery, Botanist e agora Mamaleek. O amor da Flenser Records pelo black metal atavicamente inortodoxo está frisado no seu catálogo de edições. Mas Mamaleek (escravo, em árabe) não vem de hoje. Da pouca biografia disponível, sabemos que o primeiro disco “Fever Dream” saiu em 2008 e que, a menos que estejamos a levar um barrete de todo o tamanho, é um projecto feito por dois irmãos nos antípodas do hemisfério norte. Um fica de pés voltados para o Pacífico em São Francisco e outro toma banhos de sol desértico em Beirute.

Não há vestígios de normalidade neste projecto. Imaginam um disco de black metal capaz de se intrometer na playlist de um bar de praia e com a mesma limpeza ser a primeira escolha de um artista plástico para a sua obscura instalação avant-garde? “Already There” tem a inibição drogada do trip-hop, as pregas orgânicas do jazz mais lounge e mesmo assim agita o perigo ritualístico que o black metal afirma por direito nos gritos psicopatas que se escutam ao longe. É como um homicídio invisível na orla costeira do mais intocável oceano. Sobra até a sensação de queMamaleek poderia ser um ensejo de rua, daqueles tocados entre hordas de turistas cor de lagosta espantados por haver na Terra lugares que sobem acima dos 25 graus centígrados. É intensamente paradoxal tudo o que acontece em “Via Dolorosa”, que de crúcis tem mais o simbolismo do que a matéria musical per si. Se calhar é apenas black metal porque nos dizem, porque há terrores por detrás em exibição cíclica, já que a razão nos deixa a pensar em meditações psicadélicas, uma misantropia branca num jazz iminentemente suave. E será que podemos chamar black metal a um disco que prescinde absolutamente da distorção? A um disco que nos lembra as experimentações de Don Caballero ou as neuroses do Mike Patton quando absorto no caos pós-Faith No More?