Icon é uma portentosa aula de culinária canibal, tal a força devoradora com que as três guitarras e o baixo dos Lentoconseguem construir riffs. Aliás, os italianos não fazem nada por menos e não se preocupam em levar a sua música instrumental em passeio por campos bonitos e paisagens etéreas. No novo álbum do quinteto, quando uma guitarra faz feedback, as outras fazem feedback, quando uma guitarra faz um riff cheio de palm-mutes, as outras todas também o fazem.

Uma regra avassaladora que contribui para o poder absurdo que é cuspido constantemente em Icon, numa receita com a força necessária para assustar a carne dos ossos do ouvinte. Mesmo nas suas excepções mais deliciosas, como é o caso de Hymen, uma malha que vai buscar a sua cardiologia à harmonia das guitarras e à capacidade melódica que as pequenas variações têm,  é no truque simples das três guitarras a trabalhar para levar o barco dos Lento na mesma direcção que faz com que o sucessor de Earthen, que já data de há quatro anos, seja um álbum de vísceras.

Os Lento decidiram jogar no seu próprio campeonato e olhar o sludge como acham que deve ser feito. Na sua forma cubista, de perspectivas enviesadas, os italianos conseguem não ter uma música com mais do que seis minutos e, ao mesmo tempo, terem um álbum cheio de atmosferas, em todas as dez faixas, sem excepção.

O nome não deixa dúvidas sobre aquilo que os italianos fazem, mas também não nos deixa perceber o quão mais é aquilo que resume esta banda; é muito mais do que Lento. Numa corrida para os mais arrastados, estes tipos conseguem ganhar e ninguém percebe como – a solução para as dúvidas está em Icon.