Aprendi com o tempo que nisto do rock todos temos um bocado de Lemmy. Ou então simplesmente queremos ser como ele. Mesmo que não o admitamos, a psicanálise explicaria que o Lemmy se intromete no subconsciente do rock como um chápeu bicudo se enfia nos sonhos de Freud. Temos aquela tesão secreta de mandar tudo para o caralho, trocar de vida, insultar o patrão. Comer-lhe a mulher por vingança, roubar-lhe a carteira. Usar o guito para estoirar em amplificadores. Arranjar uma banda, ter groupies em Moscovo. Ficar tão bem de calções de ganga como enfiado numa farda nazi. Ser punk e ser metaleiro. Ser do rock. Conhecer o blues. Ter experimentado o psicadelismo primeiro, a cocaína depois. Apertar o pescoço ao fígado com garrafas de whiskey velho. Usar camisa aberta sem parecer um parolo. Querer tocar mais alto com 55 anos do que com 25. Chegar aos 65 com mais volume ainda. Meter speeds como se fossem rebuçados Dr. Bayard. Não ter tempo para novelas à Axl Rose. Tocar, tocar. Tocar outra vez, tocar um bocado mais, com o microfone numa posição que mais ninguém tem. Visitar 100 vezes o Japão. Ser roadie do Jimi Hendrix. Perder a conta às voltas ao mundo. Não deixar que alguém venha com aliança e conversa de casório. Cagar em compromissos. Ser adorado. Trocar depois o whiskey pela vodka por conselho médico.

Há Lemmy em todos as caves, bares e estúdios. Nós, se calhar, o melhor que conseguimos é espetar uma foto no Facebook a dizer ‘zero fucks given’. Expressar uma individualidade de plástico, que não temos, que gostaríamos de ter, mas não há colhões. Ou não há talento. O Lemmy tinhas as ‘balls’, as ganas, a perícia para abrir o cosmos em Hawkwind e regressar ao alcatrão em Motörhead. Inventar com o Philthy Animal o d-beat, meter Discharge a babar. Convencer os metaleiros de que era fixe ser punk, convencer os punks de que era fixe ser metaleiro. Fazer o melhor disco ao vivo de sempre. Encher anfiteatros em Londres, Sydney, Los Angeles. Ser uma referência tão grande para os putos noruegueses da Helvete como para um gajo lendário do trip-hop. Transversal, universal, mas não imortal. Na, ele nunca quis disso.