Jesu padece de uma síndrome semelhante à que assombra aBjörk e que há-de perseguir outros tantos artistas a quem, injustamente, há-de ser negado de forma mediática e massificada o título de génio, ou a quem só os fãs deram a devida lâmpada. Desde que a islandesa lançou Post que toda a gente vive na expectativa de um repost. Com a banda de Justin Broadrick acontece o mesmo. Desde que o britânico reconquistou a crítica, ainda na (longa e dolorosa) ressaca do fim de Godflesh, comConqueror, que todos aguardam por uma segunda abordagem napoleónica de JKB.

Ora, aquilo de que insistimos em esquecer é que Broadrick andou ocupado a explorar todo o universo paralelamente simples e directo que rodeia o conceito musical de Jesu. Aprofundou a sua faceta electrónica em Pale Sketcher, o ruído com GREY MACHINE e deu-se a explorar os ambientes mais negros e lentos ao colaborar com monstros do post-doom como ISIS. O resultado é óbvio e está bem à mostra: Jesu não pára de crescer e de ver as fronteiras de um espaço criativamente tão humilde quanto enorme serem expandidas. Repito: o resultado está bem à mostra. Chama-se Ascension.

Todas as manhas que fazem de Jesu uma banda única e deConqueror um álbum incrível estão retrabalhadas ao primor, e elevadas acima do patamar de excelência em que já jogavam. Não há surpresa nenhuma no novo Ascension, mas também não há uma repetição bacoca de fórmulas que resultam. Atrevo-me a dizer que o conceito de Jesu, de tão simples, parece sempre que não vai resultar. Consecutivas vezes, JKB tem provado que esse é o pressuposto mais errado do mundo e que pode, sempre, fazer melhor com os mesmos moldes.

Os samples electrónicos de Birth Day, depressivos como o próprio mentor do projecto no pós-Godflesh, entram super bem nos trejeitos melódicos, em contratempo, no baixo de Fool e quase que desculpam a meio pós-punk Sedatives, uma distração para o todo que é Ascension. Samples que voltam em Broken Home em grande força, a par de uma guitarra completamente desolada. O pacoteJesu, sim, com um upgrade aqui e ali, nomeadamente na presença constante de guitarra acústica, em pormenores e bem disfarçada na electricidade depressiva do álbum, como se notaBrave New World.

Ascension marca, definitivamente, a constante subida de Jesu aos patamares divinos. Não sei, sinceramente, o que querem com um novo Conqueror, porque Justin Broadrick voltou a acertar na mouche e mostrou, uma vez mais, que o limite para a sua criatividade é o céu. É para lá que ele se encaminha, de qualquer forma.