Abrir as portas de um teatro para levar a audiência ao que está debaixo do seu palco, que, supomos, se reserva para arrumações e os seus ocupantes mais sombrios, parece uma ideia ganha à partida. Mas foi a 23 de Janeiro que a mensalidade Understage, do Teatro Municipal Rivoli do Porto, recebeu a banda que melhor encaixa no breu sob o estrado, os dubbers cavernosos HHY & The Macumbas, cuja ciência vive de e para os ecos. Assim se arranca o ano.

Lá me desloquei, indigitado para elaborar uma crítica — algo que se revelou logrado à partida. Em que posição estaria eu para criticar algo que não entendo na totalidade? O método dos HHY & The Macumbas é, como se diz em física sobre paradigmas, uma solução à procura de problemas; uma catarse rítmica, complexa, orquestra e re-orquestrada na manipulação de sons e de texturas do cerebral HHY, cuja intervenção cirúrgica altera frequências, cores e toda a expressão sonora expelida pelo septeto que o acompanha.

Nada na performance dos portuenses encaixa, sequer, nos cânones de concertos, de canção, pausa para afinar instrumentos e afagar o ego. Pelo contrário, é a expressão da singularidade, cada actuação diferente da anterior — o seu início e o seu fim, num único acontecimento. Nada disto simplifica a experiência da audiência, em tudo tão rica quanto o que no palco se está a passar. A quantidade de informação, avassaladora, regista-se como a dor e é processada como tal, não conseguido os ouvidos captar tudo o que os olhos registam, nem o cérebro assimilar todos os estímulos a que a audição está exposta; as frequências que ficam em falta na percepção existem, ecoam na sala, na amplificação e ressoam nos ossos, assimilam-se num exercício de curiosidade e de criatividade que o ensemble insiste em desafiar com a sua irresistível indução de transe.

Não sei, por isso, apontar músicas que tenham tocado, territórios da sua discografia que tenham percorrido; admitindo a necessidade de o fazerem, não entendo o que das suas actuações é ensaiado, ou se é sequer possível ensaiar algo que terá duas resoluções quânticas possíveis, a do dub e a orgânica; não sei se os meus sentidos me devolvem tudo o que os HHY & The Macumbas me tiram no concerto.

Os paralelismos com a física que aqui tracei, e em que tenho vindo a apoiar-me para explicar os Macumbas, são apenas justificáveis dado o meu conhecimento sobre a matéria e sobre o que os portuenses fazem: em ambos os casos, ficaria contente de poder dizer que tenho um entendimento rudimentar do que naquelas equações está a acontecer. Em ambos os casos, a minha vontade de trazer sentido ao caos em que fui engolido é a mesma. E assim crescem os HHY & The Macumbas, de concerto para concerto, de momento para acontecimento — e em mim, a um ponto quase obsessivo, de levantar questões e de redirecionar interesses. Há, neles, a possibilidade de procurar compreender algo dado como adquirido e estabelecido quase dogmaticamente. A forma não é formalidade, e a música não se resume a tentar a mesma coisa repetidas vezes e esperar-se resultados diferentes.

Restou-me divagar sobre a lucidez, sabendo eu, depois do concerto debaixo do chão do Teatro, que me encontro do lado obscuro da questão. Não estou, de facto, em posição alguma para criticar os HHY & The Macumbas — justo seria aguardar pelas suas correcções a este texto.