A fétida e indigente carreira dos Eyehategod estende-se de 1988 até hoje. Incapaz de renegar o que de mais infame as suas raízes têm, a música perpetrada pelos homens de New Orleans exala podridão, niilismo e isolamento. Riffs lentos, graves, dissonantes; bramidos coléricos; sludge. Ou, para eles, simplesmente a união entre o ímpeto do hardcore e o vagar do doom. Sobre um percuso que nos deu quatro álbuns – o quinto está a caminho, treze anos depois de Confederacy of Ruined Lives -, Mike IX Williams (vocalista, escritor, amante da spoken word, admirador de Charles Bukowski ou William S. Burroughs e ex-jornalista musical) revela-nos, ao telefone, pormenores passados e novidades futuras. 

Mike, está tudo?

Tudo óptimo. Pena o calor infernal, apesar de estar a chover. New Orleans…

Aqui também, com a diferença de que chuva nem vê-la. Lembras-te de quando cá estiveste em 2011?

Sim! Foi no norte, com…

Church of Misery e Corrosion of Conformity. Estive lá e fiquei surpreendido com a vossa atitude. Aguardava cinco bestas maldispostas, mas vocês divertiram-se imenso em palco. 

Sem dúvida. [risos] Divertimo-nos com aquilo que fazemos. As pessoas esperam que nós sejamos cinco motards furiosos, baseando-se na nossa música. Mas, se nós não gostássemos de dar um concerto, nunca o faríamos. Além disso, temos um bom sentido de humor e em palco transparecemo-lo.

Nos anos 90, a vossa atitude era a mesma?

Talvez. Não sou capaz de dizer que agora há menos raiva. Continuamos a ser cinco miseráveis tipos. [risos] A questão é que envelhecemos e deixámos certos hábitos – coisas que limitavam o nosso prazer em tocar ao vivo. E isso não implicou necessariamente uma diminuição da nossa fúria: continuamos a proporcionar concertos agressivos e quem a eles assiste gosta do que vê.

Calculo que te refiras, quando mencionas “hábitos”, à heroína.

Sim, era uma das coisas. Não é bom estares agarrado a isso.

Sentes que há uma grande diferença em compor e tocar música, após deixares esse vício?

Não é assim tão grande. É difícil explicar-te, pois nós ainda somos as mesmas pessoas. Somos os mesmos seres humanos, agora com outros problemas difíceis de corrigir. A questão é que não é divertido estares sob o efeito disso, não é maneira de alguém viver. Hoje, apenas nos concentramos em dar um bom concerto, sem torná-lo confuso e demasiado perdido.

É curioso que tenhas assumido o palco como segunda casa. Não esperava que, por exemplo, fizesses spoken word. Sendo a ansiedade um dos temas mais presentes nas letras de Eyehategod, é difícil imaginar, para ti, situação mais exasperante do que estar em frente a uma plateia, sozinho, sem banda para te socorrer.

É algo que sempre quis fazer. Apesar de intimidante, eu gosto de desafios. Agora, após algumas performances, estou mais habituado, mas ainda fico nervoso. É bastante complicado olhares para os lados e não teres ninguém para te ajudar, tal como dizes, mas o desafio prevalece. Além disso, é um tipo de actuação que poderei encarar quando tiver sessenta anos: sentar-me numa cadeira e ler as minhas palavras. Não acontecerá com Eyehategod. Não sou o Mick Jagger. [risos] Não vou andar por aí aos pulos com essa idade.

Imaginas-te a pousar o microfone de Eyehategod e a dedicares-te somente à escrita?

Não é algo que tenha propriamente delineado. O que é certo é que envelhecemos e creio que iria gostar de o fazer. Afinal, quem é quer ver um velho aos saltos, tipo The Rolling Stones? E eu adoro os Stones, tal como adoro Iggy Pop & The Stooges, mas é decadente assistires a um concerto de gajos com 75 anos.

O que achaste, então, da reunião dos Sabbath? Ouviste o álbum?

Escutei-o quase todo. Ainda tenho de me sentar e prestar-lhe a devida atenção. É bom, gostei do que ouvi. Mas, sim, é triste toda a situação com o Bill Ward.

Mas não achas que eles estão na mesma situação dos The Rolling Stones?

Em parte, sim. Eu adoro ambas as bandas e é difícil afirmá-lo com convicção. Eu já assisti aos Stones depois de envelhecerem e foi, para te ser sincero, chato. Se tivesse a chance, gostaria de verBlack Sabbath nesta tour, só para vê-los juntos. Fui, há anos, a um concerto deles no Ozzfest e creio que era quase o mesmo line-up, mas com o baterista dos Faith No More. Era Sabbath, com o Ozzy. Foi bom, mas, como te disse, é triste olhares para um velho. Gostas e em simultâneo tens vontade de dizer “vai-te sentar”. [risos]

Deixando a velhice de lado, e indo à juventude, quão importante foi cresceres na cena DIY hardcore dos anos 80? Ias só a concertos ou também tiveste bandas?

Tive a minha primeira banda aos quinze anos, os Teenage Waste. Éramos péssimos. E foi aí que comecei a escrever as primeiras letras, também. Letras estúpidas, do estilo “queimem a bandeira”. Assuntos típicos daquela altura. [risos] Foi divertido, foi uma influência enorme esse período. Acabou por determinar a ética dos Eyehategod: eu, o Gary [Mader, baixo] e o Joey [LaCaze, baterista] ainda gostamos de ouvir o velho punk hardcore e mantemos esse espírito DIY que referes. Já o Jimmy [Bower, guitarrista] tem um background mais ligado ao metal, apesar de, em jovem, também ter tido umas bandas punk. No geral, somos bastante influenciados por essa cena.

Como é que foi, naquela altura, ouvir o «My War» dos Black Flag e escutar as três malhas finais? Os Eyehategod parecem ter nascido daí, a guitarra do Jimmy tresanda a Greg Ginn…

Claro, sem dúvida! O Jimmy inspirou-se no Greg Ginn e nós, a partir daí, quisemos criar algo totalmente novo: misturar Black Flag com Black Sabbath. Duas bandas incríveis mas de campos distintos. Há trinta anos, havia bastante gente que desprezava os Sabbath por terem cabelo comprido. Quando os Black Flagoptaram também por deixá-lo crescer e passaram a tocar lentamente, houve imensa gente que se irritou. Mas eles enfureceram e afastaram as pessoas certas, entendes? Deixaram para trás aqueles putos estúpidos dos “mohawks”. Eu não era assim. Tudo bem, o meu cabelo também era horrível, mas não seguia modas. Entendia o que os Black Flag queriam transmitir e ainda o faço.

Essa mistura de que falas, entre Black Flag e Black Sabbath, acabou por dar origem ao sludge, género que inclui, entre outros, Buzzov*en, Sourvein, Grief e, claro, os Melvins. Tinhas a sensação, há vinte anos, de que estavas a dar origem a um novo rótulo?

Não, nunca. Só quando alguém nos disse, e nos explicou, é que nos apercebemos. Apenas tocávamos aquilo que queríamos ouvir. Escutávamos em simultâneo The Obsessed ou Saint Vitus e depois pulávamos para Agnostic FrontBlack Flag ou Circle Jerks. Até de música experimental, como a dos Swans nos primeiros anos, gostávamos. Não tínhamos a noção de qualquer género novo, apenas a certeza de que muitos iriam odiar-nos. Estávamos preparados para irritar bastante gente.

Mas esse movimento acaba por estar intimamente ligado ao sul. Vocês não se coíbem de mostrar orgulho em serem de New Orleans, apesar de a cidade já vos ter proporcionado alguns pesadelos. Estiveste preso na altura do furacão Katrina, certo?

Na verdade, já estive preso várias vezes. Quando o Katrina aconteceu, eu estava na prisão, sim. Tive muitos momentos desses, principalmente quando era jovem e decidia fugir de casa. Coisas desse estilo.

Até que ponto achas que New Orleans moldou o vosso som?

Creio que a geografia é decisiva para a música. Não é por acaso que existe a cena de Seattle. Agora há o hábito de dizer que aqui também há uma cena, algo que tem que ver precisamente com o que há pouco falávamos: o calor. Durante o verão, isto é miserável. Há um sentimento inerente à cidade. Adoramo-la, mas pode ser um sítio complicado para viver e isso reflecte-se no que escrevemos.

E é uma cidade do blues.

Sim! Esse é outro dos factores decisivos para Eyehategod. Cresci com todas essas vertentes. O meu irmão mais velho passava o tempo a ouvir blues, jazz, e eu acabei por absorver as suas influências. Para além disso, aqui, basta ires à rua: ouves blues a sair dos bares constantemente. Há música por todos os lados. Até hip-hop. É impossível não sentires toda essa diversidade cultural.

Como é que foi lidar com toda a tragédia do Katrina? O vosso novo tema, «New Orleans Is The Vietnam», aborda esse período?

Sim, mas de uma forma vaga, não é algo deliberado. Espera, os meus gatos estão à porrada. [pausa] O Katrina alterou a vida dos que aqui vivem. Acho que todos temos uma espécie de stress pós-traumático e todos temos uma história para contar. Basta falares com alguém. Mudou a cidade. Foi algo terrível, mas, ao mesmo tempo, uniu os cidadãos. Tornou-os uma família.

Pegando nessa malha nova, vocês estão há treze anos sem editar um disco. Quando é que esse álbum sai, afinal?

Está gravado. Ainda não está acabado, precisa de ser mixado e masterizado. Também necessitamos de desenhar a capa, assunto que estamos agora a tratar. Gravámos quinze canções, o que é demasiado para um disco, portanto devemos editar um longa-duração e, posteriormente, um EP. É a única forma de o fazer. Estamos agora em contacto com duas editoras para avançarmos com o lançamento, mas nós temos dificuldades em confiar nas labels.

Mas porquê tanto tempo sem lançar um álbum? É estranho, pois vocês nunca estiveram parados ou em hiato, nem são o tipo de banda que raramente se lança à estrada.

Tens razão, nós estamos constantemente em tour: Europa, Japão, Austrália, já fomos a todo o lado. É uma excelente pergunta essa. [risos] A questão é que eu não escrevo os temas, apenas as letras, e nesta banda há sempre gente ocupada com outros projectos. A juntar a isso, o Katrina obrigou a que alguns mudassem de cidade e tornou-se um problema ensaiarmos. Algumas das faixas que acabámos de gravar já foram compostas há imenso tempo. Há três, quatro, cinco anos. Só há semanas entrámos em estúdio. É o sul! Somos lentos aqui. [risos]

Vem aí puro Eyehategod?

Totalmente! As malhas estão óptimas, estamos muito satisfeitos com o que conseguimos. Se as pessoas gostaram da New Orleans Is The New Vietnam, então vão adorar o disco. Tem também influências blues, numa abordagem que nunca executámos. Ficou bem bom.

E as tuas outras bandas? Agora tens os Corrections House e também os The Guilt Of… Que é feito dos Arson Anthem e dos Outlaw Order?

Os Outlaw Order não têm feito basicamente nada, estamos em hiato sabe-se lá por quanto tempo. Era algo a que nos dedicávamos quando o Jimmy ia para estrada com os Down ou com os Corrosion of Conformity. Os Arson Anthem também estão parados porque o Hank Williams III é o nosso baterista e ele está sempre ocupado, não para de editar álbuns e andar na estrada. Ele, basicamente, vive num autocarro. Temos falado em fazer qualquer coisa, mas nada em concreto. Os Corrections House devem ir à Europa em Dezembro, provavelmente. Quanto aos The Guilt Of… é um projecto experimental que eu e o Ryan McKern temos, mas que nunca transpusemos para palco. Resumidamente, é uma banda onde eu cito passagens de livros e ele envolve-as em sintetizadores e ruídos vários. Editámos recentemente o nosso novo álbum [Isolation Room], que tem vinte temas.

Como é que os Corrections House surgiram? Sei que o termo “supergrupo” é um pouco estúpido, mas vocês são quatro figuras imponentes.

Eu falo com o Scott Kelly há imenso tempo, já que os Eyehategod tinham por hábito andar constantemente em tour com os Neurosis. O Bruce Lamont [Yakuza] conheci-o no festival SXSW, através de uns amigos, e o Sanford Parker [Minsk; Nachtmystium] chegou até mim pela cover que os Buried At Seafizeram da nossa White Nigger. Aconteceu por acaso: eu sou de New Orleans, o Scott é da Califórnia e os outros são de Chicago. Portanto, só quando nos juntámos em estúdio é que nos apercebemos de que aquilo iria mesmo acontecer e avançar. Escrevemos uns temas fortes e conseguimos sair para a estrada, pelos Estados Unidos.

Também pretendem editar um álbum?

Sim, eu acabei de vir de Chicago onde fui gravar a voz de oito músicas novas. Sairá provavelmente pela altura do Halloween.

E a tua carreira de escritor? Já editaste um livro. [«Cancer As A Social Activity»] Ouvi rumores de uma autobiografia…

Está planeada, mas preciso que alguém me ajude. Aquilo que realmente quero fazer é um livro sobre os Eyehategod, repleto de histórias e fotos de toda a nossa carreira. Afinal, estamos juntos há 25 anos e ainda há muito para contar.