Meros dias antes do lançamento do seu álbum de estreia, os Vaee Solis mostram-nos “♎”, quinto tema de “Adversarial Light”. O álbum terá selo Degradagem / Signal Rex e verá a luz do dia na próxima sexta-feira, dia 20 de Março. No mesmo dia, o quarteto português fará a sua estreia em palco na 12ª edição do Extreme Metal Attack, a decorrer no Side B em Benavente.

De referir que no bandcamp da Signal Rex se encontram já disponíveis os dois primeiros temas de “Adversarial Light”, “Saturn’s Storm” e “Adversarial Light”, sendo que o tema título não se encontra na sua versão final.

A propósito do lançamento do álbum, falámos com a vocalistaSophia e com o baterista J. Seixas para descortinar um pouco daquilo que são os Vaee Solis e perceber o contexto em que surge o motto da banda, “we bow before no one”.

© Pedro Roque

O que é que significa para vocês Vaee Solis?

S: É o sol oculto. Para os alquimistas, o Sol Negro é símbolo da morte espiritual. Contudo, é um símbolo de morte, mas também de renascimento. É na maior das escuridões que eventualmente encontramos a verdadeira luz. Para nós, Vaee Solis é sobretudo um símbolo da morte do ego.

Nos últimos anos tens [J. Seixas] passado por uma série de bandas dos mais variados géneros, do grind, ao black metal, passando por space rock ou powerviolence. Já faltava um bocado mais de sludge, não?

JS: Sim! Estava na hora, já tinha explorado muito com bandas mais rápidas e tinha de acontecer eventualmente. Eu sempre tinha imaginado ter uma banda com a Sofia, nunca tinha era pensado que ia ser uma banda de doom/sludge.

S: Está a ir cada vez mais para o black metal, na verdade.

JS: Acho que foi um ponto na composição em que conseguimos chegar a um sítio confortável. As músicas foram compostas por mim e pelo Filipe [guitarrista] e nós não gostamos do mesmo tipo de bandas. Quando toca a bandas lentas, eu gosto mais de sludge e ele gosta mais de doom clássico. Então o ponto de intercepção foi o black metal que é algo que ambos gostamos. Com a entrada do Galrito [baixo], mais assim vai ser.

«A nossa maneira de ver a música, de nos movimentarmos dentro da música e na arte em geral é muito pela nossa vontade própria. We bow before no one.» J.S.

Mencionaste a composição ter sido feita entre ti e o Filipe. Como é esse processo se desenvolveu?

JS: Foi 50/50 entre mim e ele, porque eu sou uma merda a tocar guitarra [risos]. Eu surgia com as ideias para o corpo das musicas e ele ajudava-me a criar o resto a partir dai. É lento, é doom mas não é doom, é sludge mas não é sludge e tem influências black metalall over.

Da escola Sueca?

JS: Dissection, always.

Sobre a malha que estão a apresentar, podem falar-nos dos temas explorados?

S: Esta música fala sobre o equilíbrio natural do cosmos, sobre a natureza não ser tendenciosa, de não escolher lados. Fala do facto de nós sermos parte da dela, e não o contrário – facto que muitas vezes obliteramos. Não existem favoritos de Deus, como outros preferem chamar-lhe, na verdade, todos somos jovens deuses a experimentar a mortalidade na terceira dimensão. O tempo segue o seu percurso natural, completamente alheio às nossas diferentes perspectivas, alheio até à nossa percepção dele. Esta música fala ainda sobre o caminho solitário associado à busca espiritual, que passa bastante pelo entendimento dos processos ocultos do cosmos e da integração dessa compreensão na nossa vida. Por vezes, não oferecer resistência pode ser life changing. Há uma aceitação implícita de que certas coisas, por muito que não nos pareçam justas nem sejam agradáveis, acontecem simplesmente porque precisam de acontecer. A justiça é algo muito relativo, assim como o julgamento. Tudo está em constante mudança e esta malha fala essencialmente sobre essas dinâmicas.

De forma geral, qual é que foi a tua abordagem à escrita? Há algum tema geral em “Adversarial Light”?

S: Eu tentei interpretar à minha maneira o que as músicas me faziam sentir, acho que como qualquer intérprete. Acabei por escrever sobre temas mais místicos, que é um tema que me fascina bastante e do qual não me consigo dissociar quando estou a escrever.

JS: É algo que nos une aos quatro.

S: Sem dúvida, foi precisamente isso que nos uniu a todos.

Houve algum tipo de envolvimento do resto da banda nos textos?

S: A base das letras estava escrita mas foram limadas no processo de gravação e acabou por haver algum input de todos eles. Foi muito engraçado porque os versos deles foram de acordo com o que eu já tinha escrito. Tivemos algumas peripécias durante a gravação, o tempo que era suposto eu usar para gravar voz excedeu-se um bocado e acabámos todos metidos na sala a gravar as vozes…

JS: … de onde fomos expulsos.

S: [risos] cursed from the beginning.

JS: Nós vamos ser a banda mais odiada do país. [risos] A nossa maneira de ver a música, de nos movimentarmos dentro da música e na arte em geral é muito pela nossa vontade própria. We bow before no one.

Achas que isso não é comum em Portugal?

JS: Não, porque querem somente agradar e nós estamo-nos um bocado a cagar para isso. Acho que vai gerar muito ódio que nós vamos transformar em criatividade.

S: De certa forma isso dá-me pica [risos]. Queremos quebrar com o elitismo instalado, não queremos andar a lamber botas a ninguém para ir tocar a lado nenhum.

JS: Parece que as pessoas aqui em Portugal precisam de approvalde alguém para fazer alguma coisa mais arrojada. O que nós fazemos em termos sonoros não é assim tão arrojado, é mais a atitude que nós temos perante o que vamos fazer. É aquele ethosDIY, mas por outro lado não estamos a falar de conteúdos socio-políticos, estamos a falar de espiritualidade. É preciso muito mais tomates para te revelares ao mundo como um ser espiritual do que como reaccionário.

S: É confortável. As pessoas querem alguém que pense por elas porque pensar por elas próprias implica a responsabilidade pelos seus pensamentos e actos. Querer ver a realidade daquilo que tu és é muito mais duro do que assumir uma coisa pré-concebida. Acho que nesse aspecto o que nos distingue é que somos fieis a nós próprios e nós não queremos ir por nenhum desses sítios, nós vamos por onde nós quisermos.