É um pouco impossível evitar falar de Shellac sem mencionar o inevitável Steve Albini. Porquê? Bem, talvez porque muitos dos que começaram a ouvir Shellac fizeram-no porque havia uma espécie de culto, e respeito, por esse nome que dava cartas e fazia magia nas sonoridades de algumas das bandas mais importantes da década de 80 e 90. Está-se a falar de uns Nirvana (álbum In Utero), Pixies (álbum Surfer Rosa), Jesus Lizard (Goat e Liar), PJ Harvey (Rid Of Me), Jon Spencer Blues Explosion (Jon Spencer Blues Explosion), entre muitos outros.Esse terá sido o ponto de partida. Mas será que esse estatuto de Steve Albini como mago da engenharia de som hipnotizou miríades de ouvintes para consumirem e ouvirem Shellac acéfalamente? Essa é uma questão a verificar. Sabe-se que, se existe coisa a qual Steve Albini nunca pretendeu, foi a de ter de provar algo a alguém, ou mesmo, trabalhar acerrimamente nos seus projectos musicais para se distanciar da sua actividade enquanto produtor musical. Pelo contrário, sempre foi lesto a desmarcar-se de qualquer comportamento “ir com a corrente”, estando próximo de uma ética que Ian Mackaye e os seus Fugazi desenharam e apregoaram – não ir em fantochadas e fazer o instintivamente desejável e o saborosamente  apetecível, sem constrangimentos.

 At Action Park lançado em 1994, apesar de não ser a primeira aventura da banda, já tinha editado anteriormente os singles Uranus e The Rude Gesture: A Pictorial Historial, é o primeiro registo em Long Play expositivo da banda ás audiências. Shellac e At Action Park não partiam de uma tábua rasa, pelo já dito, e também pelo passado de Steve Albini com bandas como os influentes Big Black e Rapeman. Desde logo, quem quisesse marcar nítidos pontos de comparação poderia executá-lo com essas referências em mente.

Baseados apenas numa guitarra com distorção dura, ácida, mas não estereotipada, num baixo sempre em pulsação contínua e tresloucada, mais uma bateria matematicamente presente, as estruturas de At Action Park vagueiam em tons minimalistas e distanciam-se da fórmula verso-refrão-verso, tão em voga e amplamente usados em 1994, sendo das imagens de marca mais fortes de At Action Park. Contudo, este tipo de sonoridade já nem era novidade nesta altura, quer pelo legado de bandas como os SwansRites Of Spring ou Scratch Acid, quer pelas lições de bandas mais contemporâneas como os Jesus Lizard (banda com a qual Steve Albini trabalhou), embora estes ainda prestassem um tributo considerado ao formato canção.

A diferença que marca At Action Park está nos seus ritmos abrasivos, cheios de referências ao punk mais noise, na sua linha mais drenada e transformada num sentido seco que torna imperativo o pensamento de um abismo ali à beira, desejoso de receber aqueles que não são capazes de aguentar a dureza e precisão dos estranhos ritmos e tempos irregulares. Exemplos disso são faixas como Crow, que até oferece algo parecido a um refrão mais orelhudo no seu fim, Dog And Pony Show ouMy Black Ass.

Apesar de, por vezes, dar a sensação de que a linearidade do primeiro registo dosShellac dá azo à ideia de monotonia pela sua guia sonora aparentemente pouco variada, a destreza das guitarras metalicamente engendradas entre o ácido e o duro mais arty e seco, mais as vozes semi-gritadas, semi-esfarrapadas de Albini, mais a secção ritmíca palpitante de Todd Trainer e Bob Weston, arrastam e convidam para outras e outras audições, chegando ao ponto da descoberta de nuances sublimes em músicas menos duras como o instrumental Pull The Cup ou The Idea of North, a qual se aproxima perigosamente de algo doce e de aspecto melancólico.

Shellac ganhou o seu espaço próprio com At Action Park e desfez a ideia de uma continuidade com Big Black ou Rapeman. As suas asas são de uma cera diferente, menos espalhafatosos, ruidosos, no sentido da agressividade e groove dos instrumentos, e mais engenhosos ritmicamente. Por outro lado, Shellac ganhou também a sua própria base de fãs, indiferentes e alheios ao facto de Steve Albini ter sido o tal de produtor de Nirvana e Pixies. De qualquer forma, uma coisa é inegável,At Action Park trouxe muitos fãs a outros universos completamente afastados do mainstream em 1994 e aproximou-os das correntes mais noise e abrasivas. Nesse aspecto o passado de Albini até conta bastante. E se hoje em dia se fala tanto nestas sonoridades tão desenvolvidas por bandas como Lightning BoltMagik Markers,PolvoYoung WidowsHella e outros pares, muito da culpa estará nesta banda, com nome de um tipo de resina, responsável por carregar ás costas o peso e a estridência destes universos muito próprios.