1975 não era um tempo fácil em Inglaterra. Vivia-se o pior período económico da história inglesa desde o fim da segunda guerra mundial. Os conflitos sociais pautados pelo desemprego, sucessivos encerramentos de fábricas aliadas a greves, vagas de imigrantes provenientes da Irlanda, Jamaica e restantes ex-colónias britânicas, com o consequente ressurgimento de tendências nacionalistas racistas, marcavam o clima da época. Pela primeira vez também a própria monarquia entrava em crise. Era o tempo que antecedia a entrada em força das políticas neo-liberais implantadas com mão firme, pela “dama de ferro” Margaret Tatcher que iniciou funções em 1979.O presidente da altura Harold Wilson, apesar de se promover a si próprio como “um homem do povo”, foi o que em finais dos anos sessenta iniciou as hostilidades na Irlanda do Norte, militarizando a zona contra as crescentes convulsões em Belfast e Derry. Esse foi também o tempo do aparecimento das tácticas bombistas do IRA e dos atentados em território em inglês.

Foi neste cenário escuro como o próprio clima britânico que os Sex Pistols apareceram e o punk germinou como uma erva daninha. Provenientes eles próprios dos bairros operários degradados do norte de Londres, e descendentes de famílias de imigrantes católicos irlandeses, a maior parte afectada pela incerteza do trabalho assalariado, acrescida de serem vistos como um espécie de “escumalha social”, a vida que os esperava era de sobressaltos. Tal como muitos jovens da sua altura, a escola não lhes oferecia oportunidades nenhumas a não ser “arranjarem um emprego merdoso numa bomba de gasolina qualquer”, como disse Johnny Rotten numa entrevista dada na altura. A única saída que tinham era agarrarem-se algo que os pudesse manter lúcidos num mundo paranóico. Esse algo, foi a música.

Com instrumentos roubados aos The Police, e sem os saberem tocar decentemente, muitas foram as peripécias até que Paul Cook e Steve Jones se cruzaram com Johnny Rotten e formaram os Sex Pistols, recrutando depois Glen Matlock, o baixista para completar o círculo. O tipo de música que transpiravam era um misto de raiva e de melodia cacofónica. A actual onda de rock-progressivo que pairava sobre aquela altura não lhes dizia nada, aliás, odiavam-na pelo seu carácter límpido e muito matematicamente pensado e executado. Ligavam-na às pandilhas de meninos das classes altas e catalogavam-na como elitista. Não raras vezes Johnny Rotten usava uma t-shirt que dizia “I Hate Pink Floyd” e dizia coisas como “não queremos ter nada a ver com esses infelizes hippies e rockeiros que escutam idiotas como McCartneyJagger e Clapton”. Os seus ídolos eram outros… eram os Stooges, e sobretudo muita independência. O punk não era só um rebentar contra os moldes sociais, também se rebelava contra as bandas culturalmente institucionalizadas e obviamente contra o mercantilismo da industria musical.

A 6 de Novembro de 1975 davam o primeiro concerto, que acabou com a banda a ser expulsa do palco por serem demasiado ruidosos. Um ano depois, no entanto, eles eram a sensação por onde passavam e o mito criava-se. Diz a lenda que cada concerto dos Pistols criava uma banda punk. Novembro de 1976 via Anarchy In The Uk a ser o primeiro single a ser lançado pela banda. A partir daí muitos foram os episódios que rodearam a banda. O choque que toda a energia instintiva provocava levava a motins nos fins dos concertos, protestos das ligas religiosas, cancelamentos levados a cabo pelas autoridades, e inclusive, tentativas de agressão aos membros dos Pistols. Isto sem falar, no pandemónio que causavam nas entrevistas que davam.

Nevermind The Bollocks foi já lançado como um culminar de um processo de clímax e de bombardeamentos sociais, terrivelmente chocantes para a frieza britânica. Primeiro, desafiavam o complexo discográfico levando a EMI e A&M a expulsá-los das suas fileiras, mal os Sex Pistols tinham acabado de assinar com estas. Depois, assanhavam a monarquia britânica ao cantarem no rio Tamisa a plenos pulmões “God Save The Queen, A Fascist Regim”, isto na data do jubileu de Elisabete II. Imediatamente foi proibida a difusão das músicas dos Sex Pistols na BBC, que se vingavam ao ver os seus singles no primeiro lugar dos mais vendidos, isto apesar de oficialmente isso nunca ter sido reconhecido como tal. A 28 de Outubro de 1977, pela Virgin, estava nas ruas, então, Nevermind The Bollocks.

Não existem muitas bandas que tenham mudado o mundo da música com apenas um álbum editado, ou ainda mais directamente, com apenas 12 músicas. Os Sex Pistols, com apenas Nevermind The Bollocks fizeram história e marcaram uma era musical. Pode-se dizer que existe um antes e um depois de Nevermind The Bollocks. Mal disparada a novidade, era ver como cogumelos as bandas a nascerem, depois de terem visto um concerto dos Pistols ou influenciados pela sua música e atitude provocativa anti-sistema. The Clash, The Damned, Buzzcoks, Uk Subs, Sham 69, Warsaw (que mais tarde se metamorfosearam nos Joy Division), tudo nasceu da semente punk-rock lançada por Johnny Rotten e companhia.

Era uma nova forma de encarar a música. Uma forma desafiadora, aguçada, provocativa, perigosa, que não se preocupava em seguir tendências, mas em exprimir toda a sua angústia acumulada pela claustrofobia social. Era um vómito viscoso, sujo, que se agarrava aos alicerces morais daqueles que julgavam que o espírito humano é passível de ser subjugado totalmente aos seus ditames. Não era no entanto somente o barulho estridente dos combos e o ar de alguma parvalheira inconsciente que por ali rolava, a julgar pelas atitudes sempre provocativas da banda. Havia genialidade nas letras de Johnny Rotten, muita destreza e diversidade na sua técnica de escrever.Holidays In The SunSubmissionGod Save The Queen são verdadeiras perólas de análises inteligíveis e sintéticas, não só de assuntos domésticos e mais gerais, mas indo ao cerne de questões mais concretas.

Daí nasceu depois o que viria ser conhecido como o anarco-punk, que mais tarde deu origem ao crust, em que se extremaram mais ainda todas as premissas lançadas pelosSex Pistols, lançando o punk para um patamar mais activista e político simultaneamente. Neste particular existem a destacar uns Crass, os Oi Polloi,VarukersDischarge e Amebix, entre outros.

Mas este não foi um impacto somente entre-portas, extravasou as fronteiras britânicas e ganhou raízes bem profundas nos E.U.A. Os Sex Pistols apesar de só terem dado uns poucos concertos nos states e terem acabado a digressão já em ruptura interna, conseguiram levar o mesmo espírito que já tinham deixado em casa. Se hoje se fala na cena hardcore norte-americana dos anos 80 e da sua importância, não se deve esquecer de quem foi o rastilho. Black Flag, Bad Brains, Million Dead Cops, Dead Kennedys, Circle Of Jerks, The Germs, tudo tem o selo do punk-rock dos Sex Pistols.

Para a histórica ficou, infelizmente, mais vincada a figura de Sid Vicious do que o que realmente importa, apesar de este apenas ter estado já na recta final da banda e apenas uns meses. Para além de não ter contribuido em nada para as composições, ao contrário de Glen Matlock, o baixista original, um dos elementos mais criativos em termos de composição. Incontornavelmente também não se poderia deixar de falar em Malcom MacClaren, o homem que fez dos londrinos um autêntico produto de marketing, não necessariamente no sentido comercial do termo, para seu proveito próprio, tirando partido de alguma inocência dos elementos da banda. Acabou por ter grande responsabilidade no fim prematuro dos Sex Pistols, quando quis levar demasiado longe as suas noções situacionistas de exploração do caos.

Ainda assim, não há como apagar o que existiu e um movimento que surgiu comNevermind The Bollocks. Como o jornalista Charles M. Young escreveu: “Nevermind the Bollocks changed everything. There had never been anything like it before and really there’s never been anything quite like it since.” E por aqui fico.