Southern Lord, a editora de Stephen O´Malley dos Sun o))), deve ser, neste momento, uma das editoras com mais carisma no mundo underground das sonoridades mais pesadas e extremas. Por lá andam os Earth de Dylan Carson, veteranos da cena drone, os Probot do ex-Nirvana Dave Grohl, os Mondo Generator do ex-Kyuss e Queens of The Stone Age, Nick Olivery, e outros menos conhecidos tais como os Church of Misery ou os Thrones de Joe Preston, antigo baixista dos Melvins.

 Entrincheirado na Southern Lord está também um trio de japoneses alucinados, que foi resgatar o seu nome, precisamente, a uma música dos Melvins. São os Boris. OsBoris são uns quase desconhecidos no universo rock, apesar de lançarem discos desde 1996. Tal facto será compreensível, a partir da inflexão que os nipónicos fazem a cada registo que lançam. Cada álbum dos Boris é sempre algo único e, sempre, surreal e inesperado, forjando caminhos novos a cada experiência.

Pink, um dos recentes registos da banda, não foge a essa tradição experimentalista – a diferença é que a banda deixou de lado o improviso completo passando apostar no elemento canção, embora nunca deixando para trás essa veia jamming, tão pitoresca nos nipónicos. A julgar pelas reacções da crítica musical, a mistela resultou em cheio. No nosso cantinho também a Mondo Bizarre se lembrou de incluir os Boris no seu rol de críticas, rematando «…tudo no ponto, naquele que é um dos melhores registos rock pesado de tempos recentes.» Não poderia estar mais de acordo. Se juntarmos a boa recepção de alguma imprensa musical aos concertos esgotados mais recentes da banda na Europa e Estados Unidos, então a banda acertou no jackpot.

Muito bem. E então quais são as compotas que barram Pink? Perguntarão os mais interessados em ‘deitar o ouvido ao álbum’ (nova expressão popular acabada de inventar, acidentalmente). Pink pode ser qualquer coisa tipo psicadelismo fuzzdrone punk-rockheavy(ultra)stoner… ou simplesmente acid rockPink funde ritmos rock, com energia fuzz e psicadelismo à anos 60, borrifando isso com infusão de melodia semi-cantarolável. Inevitavelmente, aqui, vão encontrar os Melvins, influência seminal dos Boris – quem ouvir a faixa número cinco, Blackout, facilmente se aperceberá disso. Para além destes, será fácil estabelecer comparações com os Earth, Kyuss, Mudhoney, Jimi Hendrix ou Stooges. Os riffs de sabor velho (neste caso isso não tem nada de mal, como o Vinho do Porto: quanto mais velho, melhor sabe), as linhas de baixo pulsantes e bateria espasmaticamente selvagem, dão azo para esgodar os Boris com as bandas referidas anteriormente.

A primeira música, Farewell, é, no entanto, um falso começo para entrar em Pink,pois parece qualquer coisa composta pelos  Sigur RósA bandeira de partida só é desfraldada à segunda canção, Pink,  que pode muito bem ser a mais excitante e orelhuda de todo o registo, a par de Six, Three Times, a faixa mais punk de todo álbum, completamente embebida numa trip de ácido Ramones/Stooges. Depois existe ainda a viciante Nothing Special ou Afterburner, um tributo stoner rock.

Stephen O’Malley confirmou a sua perspicácia indo buscar os Boris para a Southern Lord. Eles parecem ter o dom de electrizar em rodopios qualquer indivíduo sedento de rock agressivo. Aqui não é necessário qualquer tipo de drogas para se ondular freneticamente: a música é a droga. Não se deixem, no entanto, enganar pelo ar aparentemente fofo do grafismo que embrulha Pink, ele é tudo menos isso. Pode ser doce, mas não tão adocicado ao ponto de provocar sensações de azia ou náusea. É um doce de adrenalina rock a devorar.