Muitos, com legitimidade, puseram fé naquilo que estava escrito no bilhete: 22 horas. Contudo, e apanhando desprevenidos os que por lá fora ainda vagueavam, os Saade entraram em palco às 21:20. O duo checo teve de actuar perante uma casa relativamente desnudada de público e, em jeito de bottom line, poder-se-á dizer que fizeram o melhor que podiam. A uma banda que abre para Russian Circles e Boris nunca se poderá exigir deslumbramento, pois, mesmo que o conseguissem, o cérebro humano tem amagnífica capacidade de ajustar as expectativas em relação à realidade – e os Saade acabariam por se tornar vítimas de uma certa indiferença criada à partida. Porém, o par de músicos de leste também não fez por se notar por aí além, deixando à cidade lisboeta um par de bons riffs, os poucos que conseguiram sobressair para lá de uma acústica atabalhoada e ruidosa. Se o objectivo deles é serem uma espécie de Black Cobra com o botão stoner ligado, ainda lhes falta percorrer um caminho árduo.
Muitos de nós ainda têm a cabeça a andar à roda depois das mais recentes legislativas – principalmente depois de sermos bombardeados com as irritantes sondagens diárias. E, aproveitando essa onda criada pela comunicação social há umas semanas atrás, não teria sido mal pensado fazer um questionário à boca do MusicBox, perguntando a cada um dos presentes que banda preferia ver como headliner da noite: Boris ou Russian Circles? Não arriscando muito nesta previsão, provavelmente teriam ganho os americanos. A banda de Chicago já tem uma fan base potente cá por Portugal, fruto dos grandes concertos dados anteriormente na ZDB e também no MusicBox, e isso notou-se na recepção a que teve direito logo que Harper Lewis deu início à actuação.
Não fossem os enormes interlúdios entre as faixas e os Russian Circles poderiam ter abandonado o Cais do Sodré com o título de melhor concerto da noite. É que músicas como Youngblood ouDeath Rides A Horse (esta a fechar) deram um estaladão aos presentes – são relíquias do espectro post-rock/metal e vê-las ao vivo apenas confirma essa impressão que se tem em casa; já a nova, 309, mostrou uns Russian Circles com um índice de agressividade maior do que é habitual, fazendo uso de um baixo mais corpulento e de uma riffalhagem abrutalhada, menos dada às melodias que sempre patentearam a carreira do grupo. Só é pena que precisem de três/quatro minutos de intervalo entre cada faixa…
Da última vez que visitaram a capital, os Boris tiveram uns problemas com a PSP, que informou a organização de que havia barulho em excesso, obrigando, provavelmente, os japoneses a encurtar em demasia a actuação. Curiosamente, três anos depois, os japoneses voltaram a tocar menos tempo em Lisboa do que no Porto: My Neighbour Satan e 1970 foram retiradas do setlist apresentado no Hard Club e com elas foi-se meia hora de concerto.
Com sessenta minutos de gig, os nipónicos demonstraram que é possível ser-se polivalente sem perder identidade; que é possível vasculhar múltiplos trilhos sem queimar as raízes de uma carreira que dura há vinte anos. Se há banda que merece ser designada por experimental, essa banda são os Boris.
Abrindo com Riot Sugar, do novinho Heavy Rocks, os japoneses meteram prego a fundo no pedal do doom, passando de imediato para a punkalhada visceral de 8 e Statement: uma mudança de velocidade que obrigou parte do MusicBox a entregar-se a empurrões e saltos amiúde, com o suor a irromper definitivamente, numa sala que, à partida, já estava em brasa.
A partir daqui, e com gongadas do pouco ortodoxo baterista-vocalista Atsuo à mistura, os Boris renderam-se em definitivo aos seus novos álbuns, com quarenta e cinco minutos que vaguearam entre uma pop sussurrante à Ladytron presente em Party Boy e um drone/doom hipnotizante que teve como píncaros Missing Pieces e Aileron – a última usada como despedida, surpreendo o público, que ainda ficou a pedir por um regresso durante uns cinco minutos.
Para trás, fica um grande concerto de uma banda que, se fosse comentada pela voz imponente do Eduardo Rêgo, seria descrita provavelmente assim: este camaleão japonês poderá ser visto até na Europa, procurando refúgios em caves apinhadas de gente e com um índice de humidade elevado – é este o habitat natural de uma espécie em extinção e que consegue, ainda hoje, assumir as mais variadas formas e feitios.