XI traz-nos uma surpresa agradável: Ian Astbury. É verdade, o mítico líder dos The Cult decidiu colocar a sua voz em mais um dos projectos da banda japonesa Boris.

É conhecido o sentido polivalente com que Astbury encara a sua carreira. Para além dos The Cult, já participou em registos com os UNKLE (impossível esquecer aquela Burn My Shadows do War Stories (2007)), liderou os Riders on the Storm – encarregando-se de “substituir” o seu ídolo Jim Morrison – e gravou uma faixa para o mais recente trabalho de Slash. No entanto, não deixará de surpreender a sua presença num trabalho de Boris, uma banda pouco ortodoxa e pouco dada a tradicionalismos e ao rock puro e polido… Não é por acaso que são conhecidos pelo epíteto “Os Melvins do Oriente” – sendo o próprio nome da banda nipónica inspirado na faixa de abertura de Bullhead, álbum lançado pelos Melvins em 1991.

A verdade é que BXI, um EP de 4 faixas, não mostra por aí além a vertente psicadélica e anti-canónica de Boris. Souberam adaptar-se ao seu convidado de honra, praticando um rock mais convencional do que o habitual – não deixando de lado, contudo, as suas guitarras ruidosas e sujas, bem ao estilo de uns Drive Like Jehu, naquele post-hardcore maníaco.

O resultado é mau? Nem por isso. Mas também está longe de ser extraordinário.Teeth and Claws, a canção que abre o EP, mostra todo o potencial vocal que Astbury ainda possui, alinhado sobre um belo trabalho de riffs; no entanto, a faixa torna-se um pouco repetitiva e carente de direcção, até que Wata, a guitarrista/vocalista de Boris, decide empregar o seu tom de criança nipónica ao fim da canção. Caiu bem.

We Are Witches é a canção mais agressiva do EP. Um intro prometedora de Atsuo Mizuno na bateria e mais uma série de riffs down-tuned, acompanhando um Astbury que não sabe o que é cantar mal, nem o que é fazê-lo sem devoção. Nada de original ou marcante, todavia.

A faixa final, Magickal Child, é, provavelmente, o ponto alto do trabalho. Nela, temos uns Boris bem mais ao seu estilo, aplicando um drone cru e cinzento, que assenta na perfeição a todo o tom que Ian Astbury assume durante os quase 6 minutos de duração da faixa. Sente-se uma melancolia forte, naquela que é um closer excelente para o EP.

Pois é!… Falta uma faixa. Ela surge ainda antes de Magickal Child. Chama-se Rain. Ora, fazendo umas contas de cabeça… Hum, Rain + Ian Astbury = The Cult? Correcto. Uma cover da banda de sempre do inglês, onde, curiosamente Astbury não participa. A tarefa é deixada para Wata, que, mais uma vez, com a sua voz angelical, confere à faixa toda uma nova aparência. Se me dissessem que isto era um hit de post-punk dos 80′s eu teria algumas dificuldades em acreditar… Uma grande cover, em jeito de homenagem ao special guest.

E acaba por ser esse o somatório do EP. Um trabalho onde os Boris decidem fazer uma vénia a um vocalista icónico de uma banda que decerto influenciou os japoneses. Fica-lhes bem e fica bem a Astbury descer até ao underground para ser aplaudido.