Sábado, dia 22, foi uma noite em que não foram proferidas palavras: as conversas foram deixadas para as cordas das guitarras e baixos, carregados de distorção, num dos discursos mais incendiários a serem proferidos a Coimbra nos últimos meses.

A Via Latina não estava vazia, já não era mau. Poucos tinham noção de que a sala da discoteca conimbricense ia ser tomada pela onda emergente do Stoner Rock português. Os que faltaram não imaginam que perderam uma noite cheia de força e de psicadelia.

Os primeiros feedbacks a abafar a música vinda do PA vinham dos pequenos amplificadores dos Alice In Wonderland Syndrome, banda local, claramente a mais jovens das três que compunham o cartaz. Com uma actuação muito contida, encheram o espaço como puderam com o seu Rock lento e bem pesado, suficiente para fazer alguns dos presentes curvarem a espinha. É inegável que há um conceito, um bom conceito, a precisar de desenvolvimento, mas este concerto não deixou de ser uma boa surpresa.

Seguiram-se os Josué, O Salvador Em Busca da Perdição. A contenção não pegou nos instrumentos desta banda de Coimbra que desenvolveu o ambiente explorado pelos conterrâneos, complexificando-o com muita classe: o baixo, carregado de distorção, fazia a melodia, enquanto que a guitarra fazia o resto – solava, fazia ambiente com muitos feedbacks. O improviso assumiu as rédeas do ambiente na Via Latina a partir desta actuação, que teve duas músicas, ambas longuíssimas, lentas, pesadas e cheias de solos de guitarra. Uma actuação a reter.

Mas a surpresa da noite, a verdadeira e mais brutal, ficou para o fim. A constatação, feliz, de muitos dos presentes foi que se calhar Coimbra ainda é a cidade do Rock e que ainda há quem faça música na terra dos estudantes, no entanto foi um momento fugaz de contemplação que durou até os barcelenses Black Bombaim pegarem nos seus instrumentos. A bateria mostrou-se, finalmente, mais desenvolta e rica do que durante as anteriores actuações, dando uma dinâmica completamente diferente à música. E foi precisamente com uma bateria bem batida que começou o concerto deste trio de Stoner Rock. Tal como uma caixa de velocidades, a actuação começou, primeiro, algo lenta, aproveitando a onda que dominou a noite, depois desmultiplicando o andamento da música com outra mudança, uma mais rápida, e depois outra ainda mais rápida, outra, e por aí em diante; culminou com um público rendido a abanar a cabeça, deliciado, bem depressa, a sorver a música que se impunha na sala, imponente e melodiosa. Esta banda demonstrou conhecer bem os limites do seu género, expandindo-os durante a monumental Jam Session que foi o concerto. Há química, há atitude, há boa música… Todos os ingredientes necessários para proporcionar a viagem alucinante e esmagadora que é a sua actuação.

No fim desta avalanche, fez-se um silêncio repentino. Sem uma única palavra, os Black Bombaim pousaram os instrumentos e começaram a desmontar o material. Sem uma única palavra, as outras bandas acompanharam o ritual. No Sábado, dia 22, a Via Latina foi dominada pelo tipo de música mais demolidora: a instrumental. Não há discurso mais elucidativo sobre o bom Stoner que já se faz em Portugal.