Para lá da robusta superfície que o seu manto fielmente protege, na essência de Amenra subsiste uma naturalidade que lhes parece mandatada pelo destino. Como se, mal chegados aqui, a tudo isto que os circunda e ladeia, a sua missão fosse desde o primeiro dia irrefutável: sofrer, reunir, expurgar, criar, apreciar. À semelhança da serpente que faz da própria cauda banquete, não vislumbram onde e quando tudo terminará. Perduram num ciclo que hoje perpétuo lhes parece e, a cada reinício, ortografam escrituras; imateriais vestígios daquilo que, a dado sol, foram – chamam-lhes “Mass”. Contamos cinco. Mão cheia de capítulos que os arrastaram da Flandres até outras Europas. Mas, para eles, além dos galardões e epítetos que nós e outros lhes atribuem, está o amigo, o companheiro. A Church Of Ra, congregação de almas símiles por si nutrida, não é mais do que uma Távola Redonda de velhos conhecidos, onde o lema primeiro “Amicitia Fortior” evidencia que nada há mais forte do que a união. Vêm até nós dentro de uma semana e não quisémos ignorar a chance de uma vez mais dialogar com o vocalista Colin H. Van Eeckhout. Tal como o caminho pisado Amenra, também a entrevista que se segue amalgama tempos passados, linhas presentes e propósitos futuros.

Os anos passam e Amenra vive há mais de uma década. Diz-me: estás satisfeito e, quem sabe, surpreendido com a vossa capacidade de superar a barreira do tempo, mantendo-se relevantes e alcançando cada vez mais pessoas?

Claro que estamos mais do que satisfeitos. Ficamos atónitos com a chance que nos dão de podermos prosseguir. A nossa amizade está cada vez mais forte. Envelhecer leva-nos a uma grande fadiga física depois de um concerto, mas permanecemos vivos. Basicamente, temos feito o mesmo desde o início e não trabalhamos com um dia final no horizonte. É algo que necessita de ser executado.

Parece-me essencial que tenham atingido uma maior audiência, principalmente após o “Mass V”. O que poderia ser visto como um culto belga, tem hoje claras ramificações no underground europeu. Tens esta percepção?

Nunca almejámos uma “maior” plateia. Se quiséssemos trabalhar rumo a uma audiência mais vasta, teríamos de mudar de estilo. E, isso, nunca. Deixamos que venham até nós, em vez de irmos à procura de alguém – se me faço entender. Nunca perdoei algumas das minhas bandas favoritas por terem mudado de estilo. E não espero que os nossos seguidores o façam. Se queres tocar outra coisa, começa outra bada. Ou faz tudo em simultâneo. Mas não mistues. Por exemplo, nós criamos discos ambientais e discos acústicos. Mas, no fim, é tudo o mesmo. Fazemos o que sempre fizemos. E colocamo-lo lá fora.

A vossa agenda também está a crescer. Parecem ter mais concertos marcados e, consequentemente, mais energia física e mental para gastar. Não estão preocupados com a possibilidade de atingirem um ponto de exaustão?

Preocupados. Sim, sem dúvida. Mas já estamos nesse ponto. Estamos partidos. Mas tem de ser feito.

Consegues comparar os concertos de agora com os de há dez anos? Vocês discutem erros após saírem de palco? Há tensão quando estão na estrada?

Sim, nós falamos sobre as falhas. Mas no sentido de puxarmos uns pelos outros. Sem tensão de qualquer espécie. Mantemos a amizade lá no alto e o nosso esforço criativo intacto. É algo normal quando se tem um colectivo artístico. Por vezes surgem opiniões diferentes. Mas trabalhamos muito até nos encontrarmos num certo ponto.

Esta pergunta que te fiz está relacionada com a sequência de vídeo gravada pelo Jeroen Mylle, em que defines a experiência de andar na estrada como “estar sozinho estando acompanhado”. A experiência numa banda é, no final de contas, uma experiência solitária?

Claro. Tens de procurar dentro de ti a capacidade de te entregar ao máximo e isso não o fazes pela banda. Se não o fazes por ti, então não és honesto, não estás a ir tão fundo como devias. Quando estás com a tua família, não estás com a banda, e quando estás com a a banda, não estás com os teus filhos. Seja como for, é um local solitário. As digressões são a fase onde tens tempo para pensar, onde te afastas da azáfama diária. Limpas a cabeça, raciocinas. Tomas decisões.

O Jeroen Mylle e o Stefaan Temmerman têm acompanhado o vosso percurso ao longo dos anos, gravando e documentando grande parte dos vossos passos. É decisivo para Amenra tê-los na estrada?

Stefaan Temmerman não é somente fotógrafo, é também o nosso técnico de guitarras e um monstro polivalente em tour. É uma benção tê-lo connosco. Documentou uma larga percentagem da nossa existência. Nos primeiros anos, acompanhou-nos para fotografar e paulatinamente ganhou um papel relevante em todo o processo de digressão. E, agora, é um membro da nossa equipa de viagem. Sempre. O Jeroen Mylle fá-lo ocasionalmente. Temos estado mais ocupados com cinematografia e estamos a trabalhar num filme artístico há mais de um ano. Está quase pronto. Estou mesmo entusiasmado com ele. É uma nova página na história de Amenra. Mas ambos são pessoas bonitas e inspiradoras. Adoro sentar-me e beber café com eles. É das minhas coisas favoritas. Há muito mais gente, como o Thomas Sweertvaegher e o Maarten Kinet, que também a nós se juntam de tempos a tempos. O Temmerman é capaz de ser quem o fez mais vezes.

Curiosamente, colaboraram recentemente com o Willy Vanderperre no excelente vídeo para “À Mon Âme”. Sendo Amenra uma banda tão auto-consciente, que opera cada detalhe visual, como conseguiram confiar em pleno no Willy? Consideram o clip como algo vosso, algo oficial, ou uma prorrogação externa do vosso trabalho?

“Oficial” – não lidamos com conceitos do género. Claro que é oficial. Tudo o que fazemos é-lo. O Willy Vanderperre e o Nicolas Karakatsanis foram de longe os tipos mais capazes de executar o vídeo. Conheci o Nicolas há anos e tenho sido um adepto do seu trabalho cinematográfico. Ele transcreve a realidade de uma forma obscura. É inexplicável. Quanto ao Willy, cruzámo-nos online e começámos a trocar mensagens, sem que eu tivesse noção do seu trabalho. E eu considero isso muito bom. Provimos da mesma zona da Flandres e percebemo-nos bem mutuamente. Sabemos de onde somos. A nossa terra inspira-nos de múltiplas formas. Quando descobri que ele era fotógrafo, de imediato reconheci a sua personalidade no que faz. Simples, mas monumental. Honesto e esteticamente perfeito. Os olhos de ambos são visionários. A sorte juntou-nos. Por vezes, sabes de imediato que és capaz de criar algo “grande” com alguém.

Pareces extremamente ligado à Natureza e a Flandres tem esse lado beatífico, ocultando também uma aura soturna, típico de um local que já foi palco de algumas das mais violentas batalhas conhecidas. Gostas de te submergir nessas paisagens?

Adoro fazer isso, mas infelizmente não tenho disponibilidade nestes dias que correm. A realidade deixa-me sem tempo. É um sítio inspirador.

Amenra é um trabalho a tempo inteiro?

É sim, mas, simultaneamente, giro uma loja com o Mathieu [Vandekerckhove, guitarrista]. E todos nós tentamos ser os melhores pais para os nossos filhos.

No início, a banda funcionava para ti como um local onde podias mitigar a dor de teres perdido grande parte da tua família para o cancro. Podemos então afirmar que Amenra viajou da morte enquanto reflexão até à celebração da vida? Sendo disso exemplo o álbum acústico dedicado às vossas crianças.

Absolutamente. Há uma ligação inequívoca entre o nascimento e a morte. Luz e escuridão. Uma não existe sem a outra. Felicidade e mágoa. Precisamos de ambas para compreendermos o todo. Acredito que o Homem necessita de sacrificar alguém. Para ganhar outro. Tens de deixar o amor para depois ganhá-lo. Nunca consegues nada de graça nesta vida. Por norma, ganhas amor e luz quando alguém nasce. Tens uma criança, elas têm avós e, a seu tempo, sacrificarás o mais velho da tribo para que os mais jovens tomem o seu lugar. Quando uma mãe, ou um pai, morre antes de ter um neto, há um desequilíbrio. Então, tens de encontrar uma maneira de corrigi-lo. E foi assim que fizemos.

Imaginas como tudo seria sem Amenra?

É, de longe, uma das mais belas coisas de que poderia fazer parte. Estou eternamente grato. Não consigo conceber como as coisas seriam sem isto. Tornou-se a maior parte do meu ser. Tornou-me o homem que sou hoje. Ao mesmo tempo, tens de ser realista – perceber o quão sortudos somos por nos termos cruzado a certo ponto. E termos a oportunidade de fazer música. Criar.

Regressando ao ponto de partida, vocês ao vivo não tocam qualquer tema do vosso primeiro disco. Consideram-no uma fatia totalmente diferente do todo que é Amenra? E qual o motivo para recentemente o terem reeditado?

Fizemo-lo pois nunca o lançámos em vinil e achámos que o merecia. Além de que se encontrava esgotado. Encaro-o como uma representação dos nossos primeiros dias, onde nos formámos. Para nós, não estava acabado. Apenas tínhamos iniciado algo. Não o levamos a palco talvez por ter uma relevância emocional de uma magnitude inferior ao II, III, IIII e V. Éramos mais jovens, tínhamos tristezas diferentes.

Essa juventude foi fortemente influenciada pela música hardcore. Quão importante ela foi e o que vos ensinou que ainda hoje é imperativo?

Nem todos partilhamos esse background hardcore. O nosso baterista, por exemplo, cresceu no punk. Mas, de muitas maneiras, vêm da mesma génese. Somos muito minuciosos no que executamos. Quando cravamos os dentes em algo, não largamos, e isso no fim é bastante gratificante. Fizemo-lo juntos, sabes? Nós. É importante defender algo até ao tutano. Importante acreditar no que fazes. Acaba por transparecer na música e na arte.

(Spineless, banda que na sua formação contou com Colin H. Van Eeckhout na voz e Mathieu Vandekerckhove na guitarra.)

Cresceram na Bélgica, país conhecido no underground pela cena hardcore H8000. Qual o papel que ela desempenhou em vós enquanto músicos? Moldou-vos?

Fomos parte dela, com bandas antigas. Portanto, moldou-nos de maneira única, sem paralelo. Era o que víamos a cada fim-de-semana na nossa adolescência. Foi aí que ganhámos as nossas raízes enquanto seres humanos. Foi o que nos educou, assim que os nossos pais não mais conseguiram cumprir essa tarefa.

A filosofia straight edge, que foi seguida por alguns de vós, é ainda parte de Amenra?

Dois de nós mantêm-se straight edge há mais de vinte anos. Alguns foram, outros não. É importante para quem lhe permanece fiel, mas não o é para os restantes.

De volta ao momento actual, o “Mass V” está quase a cumprir dois anos. Como o observas? Gostas de o ouvir? Há nele erros que pretendem corrigir?

Apercebes-te de falhas mal acabas de gravar. E irás detectá-las para o resto da tua vida. É tudo o que ouves. Podes fazer sempre melhor e é isso que persegues. Quase nunca o escuto, sinceramente. Mas quando o faço mexe comigo. Arrepio-me, ainda. O pensamento de que este percurso ainda não terminou conforta-me.

Já estão concentrados no Mass VI? Alguma novidade sobre ele ou outro projecto de Amenra?

“De Metanoia/De Messe”. Será um álbum ambiental/filme artístico, que verá a luz do dia neste ou no próximo ano. Actualmente, estamos a compor temas acústicos. É um lado que tem estado mais presente na nossa mente. Também há colaborações para bandas sonoras de curtas e longas metragens. Focamo-nos em coisas diferentes em simultâneo. Talvez a primeira coisa a sair seja um livro.

Em relação ao DVD gravado no concerto de apresentação do “Mass V”, ele estará disponível no Porto? É a única forma de adquiri-lo?

Por enquanto, sim, está apenas disponível em concertos. Brevemente, poderá ser comprado online. Também estamos prestes a editar no Verão, via My Proud Mountain Records, o “Live II” – o nosso segundo álbum ao vivo, registado nesse concerto.

Agora que a tour de Church Of Ra estás prestes a arrancar, como te preparas? Que discos e/ou livros levas contigo?

Yob far-me-á companhia. Tal como Indian, provavelmente. Não irei ouvir muita música. O livro “Scar Lover” [de Harry Crews] vai ser a minha leitura.

Uma palavra para quem for ao Porto.

Não fujam depois do concerto. Queremos conhecer-vos.